“SON MÍAS LAS FRONTERAS QUE CRUCÉ”
DORES E RESILIÊNCIA NO DESLOCAMENTO FORÇADO DE VENEZUELANAS AO BRASIL
DOI:
https://doi.org/10.29327/1163602.7-291Palavras-chave:
deslocamento forçado, gênero, conservation of resources, espirais de perdas, resiliênciaResumo
Diante da crise social, política e econômica na Venezuela, mulheres e homens venezuelanos atravessam a fronteira com o Brasil, localizada em Roraima, em busca de condições dignas de vida. Dado que construções sociais facilitam para que pessoas vivenciem a migração forçada de maneiras diferentes a depender do gênero, este estudo teve como objetivo investigar o processo de deslocamento forçado de mulheres venezuelanas ao Brasil, especialmente no que diz respeito aos impactos psicológicos e sociais desta experiência. Foram estudados os casos de três mulheres migrantes, venezuelanas, vivendo em abrigos para pessoas refugiadas em Roraima, entre 29 e 45 anos, com o tempo de estadia no Brasil entre 8 e 18 meses. O aporte conceitual no qual se baseia o estudo se dá no entrelaçamento de cada base de um tripé teórico: a Teoria de Conservação de Recursos (COR – Conservation of Resources) de Hobfoll, a perspectiva de gênero e o aparato poético-teórico de Anzaldúa como uma possibilidade de compreensão dos espaços de fronteira (borderland). Os resultados revelam que as perdas de recursos se dão no contexto pré-migratório e pós-migratório, relacionando-se e evidenciando espirais de perdas, e estão intimamente relacionados à construção social de gênero. Tais perdas e a maneira como cada pessoa lida com elas estão relacionadas com a história de vida e possibilidades de construção e manutenção de recursos. Recursos de enfrentamento prévios e o engajamento se mostraram como estratégias possíveis frente às situações de espirais de perdas e estresse traumático. Para facilitar o desenvolvimento da resiliência e favorecer o processo de engajamento, mostrou-se relevante que a resposta humanitária invista em possibilidades de (re)construção de recursos, no fortalecimento do suporte social e que as mulheres sejam participantes nos processos de desenvolvimento de intervenções. Para o fortalecimento de uma Psicologia Humanitária latino-americana percebe-se a importância e urgência de simultaneamente aprender com a Psicologia Humanitária construída no norte global e reconhecer as especificidades da região para oferecer o suporte psicossocial culturalmente sensível, eficaz e sustentável às pessoas que necessitam de proteção internacional.