VIOLÊNCIA E RESISTÊNCIA

UM ESTUDO DE CASO A PARTIR DO PROCESSO INQUISITORIAL DE MARIA DA CRUZ (1593)

Autores

  • Marize Helena de Campos Universidade Federal do Maranhão (UFMA) / Centro de Humanidades (CHAM)

DOI:

https://doi.org/10.29327/1163602.7-132

Resumo

Maria da Cruz, tinha 25 anos quando foi presa pelo Tribunal da Inquisição de Lisboa acusada de islamismo. De acordo com a narrativa constante no processo inquisitorial, disponibilizado digitalmente no ANTT, https://digitarq.arquivos.pt/details?id=2303125, aos treze anos de vida, vendia pão, sardinhas assadas e vinho na Costa de Cádiz aos homens que tiravam peixe do mar para seu amo Antão Flores, quando o local onde trabalhava foi invadido por 16 mouros que lhe fizeram cativa. Levada à “praça”, foi comprada e levada cativa para o Marrocos. Por três vezes, tentou fugir dos açoites e pancadas que constantemente era submetida, mas foi “recapturada” até que conseguiu fazê-lo andando durante quinze dias, de dia e de noite. A justificativa deste estudo deve-se ao fato de que, embora muitas pesquisas sobre a temática inquisitorial tenham sido feitas, os estudos dos sujeitos históricos femininos, no que se refere a manifestações de resistências femininas no início da Idade Moderna, apresentam-se ainda de forma bastante diluída na historiografia. Metodologicamente, o percurso foi pontuado pelo levantamento e análise de informações decorrentes da transcrição paleográfica do conteúdo processual de Maria da Cruz. A transcrição e análise do processo em causa permitiram vislumbrar a angústia provocada por tão intensa pressão psicológica, medo, exposição, humilhação e ao mesmo tempo sua resistência expressa na fuga. A par da transcrição paleográfica, optou-se por seguir as balizas propostas por Carlo Ginzburg. Nomeadamente seus apontamentos inscritos nas obras, “O queijo e os vermes”  e “Mitos, emblemas e sinais”, onde tece considerações sobre o uso de processos como fontes e a imprescindível observância dos detalhes ali contidos e seu potencial em revelar ricas informações, não raras vezes decisivas, sobre pessoas anônimas, comuns, mas que compõe o protagonismo da história.  No que se refere ao aporte teórico, a eleição dessa matéria-prima, ao mesmo tempo sujeito e objeto, encontra-se no conjunto do que a historiografia nomeou História das Mulheres e justifica-se pelo entendimento de que elas têm e participam das ações cotidianas em contraposição aos discursos de sujeitos secundários e subalternos com que foram abordadas durante séculos. Como objetivos espera-se, alcançar detalhes das práticas de violência contra mulheres bem como as resistências e enfrentamentos descritas no processo inquisitorial, revisitando histórias de vida que, de outra forma, permaneceriam esquecidas no tempo e difundir e democratizar as informações alcançadas na documentação trabalhada com vistas ao conhecimento, no âmbito acadêmico e fora dele, de histórias de mulheres como Maria da Cruz. Nesse sentido, a “dissecação” do conteúdo do seu processo possibilitou um conhecimento mais aprofundado das vivências femininas no século XVI entrelaçado a constatação, no tempo presente, da permanência de várias formas de violência contra mulheres, colocando um desafio ético-político fundamental frente àqueles que recusam o irracionalismo dos discursos e práticas que continuam a embasar tais posturas.

Publicado

31.12.2022