AS PORTAS DO CAMPO

O NAVIO NEGREIRO E O CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DO SÉC. XX

Authors

  • Andre Luiz Moreira Universidade Federal do Espírito Santo - UFES

DOI:

https://doi.org/10.29327/1163602.7-514

Keywords:

ESTADO DE EXCEÇÃO, SOBERANIA, VIDA NUA, ESCRAVIDÃO, MODERNIDADE

Abstract

Esse estudo objetiva analisar como a escravidão nas Américas, identificada sob as categorias trabalhadas por Giorgio Agamben na obra Homo Sacer, pode ser considerada a primeira e maior expressão da exceção soberana e da vida nua na modernidade, e sua primeira experiência bio-tanatopolítica. Da mesma forma, analisar como o navio negreiro, cuja arquitetura conjuga a masmorra flutuante e o entreposto comercial, tal qual o panóptico foucaultiano, pode ser estudado sob a perspectiva genealógica-arqueológica como exemplo e paradigma para pensar as relações de poder e a instrumentalização da vida no capitalismo de vigilância. A intuição inicial para essa pesquisa veio da possível analogia entre o monumento erigido na Porta do Não Retorno de Ouidah, no Benim, último contato dos escravizados no solo africano, com a porta do campo de Auschwitz, sobre a qual se pode ler “o trabalho liberta”. Não só essas portas se traduzem mutuamente, como os fatos e rituais que precediam a passagem por elas, esquecimento e desnacionalização, podem ser tomados como assinatura, conectando tempos e âmbitos diversos. Por outro lado, os campos e os navios negreiros resultam de um grande aporte tecnológico para gestão da vida e morte de suas vítimas. Escravizados e prisioneiros dos campos são homines sacri. A colonização das Américas constituiu um grande campo onde a vida nua do escravo é paralela e correlata ao poder soberano de um governo estrangeiro. Portanto, tomando a máxima schmittiana de que a exceção não só confirma, como é condição de existência da regra, esse estado de exceção permanente criado nas Américas é uma chave hermenêutica para compreensão da política contemporânea no Ocidente. A dita crise mundial da democracia, que ganha visibilidade após o 11/9 nos EUA, é explicada como o estado de exceção que se torna a regra do governo no mundo. Essa crise, se pensada pelos paradigmas da escravidão e da dominação colonial, já não é vista como exceção, mas realização do projeto moderno, que, embora ideologicamente fundado na autonomia do ser humano e na autodeterminação dos povos, foi materialmente sustentado pelo sistema em que negros roubados na África são postos para trabalhar nas terras roubadas aos índios na América. São objetivos deste estudo: revisar a obra de Agamben para compreender a questão da expansão do estado de exceção como forma de governo da modernidade ocidental; pesquisar na história e nos registros culturais da América e da África sobre a escravidão negra, em especial sobre o tráfico de escravos, mas também sobre o modelo de governo do Novo Mundo, para articulá-los com a teoria do estado de exceção. A pesquisa pretende confirmar, considerando a contemporaneidade da colonização das Américas com o advento da modernidade, que esta já possuía, na sua relação política original, o furo pelo qual se pode contemplar o centro vazio da máquina (necro)biopolítica do Ocidente. Por fim, a partir desses objetivos, pretende-se denunciar o silenciamento da África e da América Latina e, nelas, a questão da escravidão e da condição negra no pensamento político-jurídico-filosófico atual.

Published

2022-12-31