A JUDICIALIZAÇÃO DA SAÚDE E O SOFRIMENTO SUBJETIVO DOS ASSISTIDOS PELA DEFENSORIA PÚBLICA

JUSTIÇA, VULNERABILIDADE E ÉTICA DO CUIDADO NOS JUIZADOS DA FAZENDA PÚBLICA DE GUARAÍ-TOCANTINS

Autores

  • Carla Reis UNIVERSIDADE FEDERAL DO TOCANTINS/ESCOLA SUPERIOR DA MAGISTRATURA TOCANTINENSE

Palavras-chave:

Judicialização da saúde; Vulnerabilidade; Saúde mental; Direitos humanos; Ética do cuidado

Resumo

Esta pesquisa tem como objeto os impactos psicossociais da judicialização da saúde nos sujeitos hipervulneráveis assistidos pela Defensoria Pública, com foco nos Juizados da Fazenda Pública de Guaraí-TO. A escolha do tema se justifica pela lacuna existente na literatura e nas políticas públicas quanto à abordagem do sofrimento subjetivo e emocional dos usuários do sistema de justiça que recorrem à via judicial como último recurso para assegurar o direito à saúde. Embora tal judicialização seja amplamente discutida sob os aspectos normativos e quantitativos, observa-se pouca atenção às dimensões afetivas, simbólicas e existenciais que atravessam o processo judicial, sobretudo em contextos marcados por desigualdades estruturais. A relevância do estudo reside, portanto, na necessidade de integrar a ética do cuidado ao campo jurídico, reconhecendo o sofrimento como elemento legítimo da demanda por direitos. O objetivo geral é propor um modelo de acolhimento interdisciplinar e humanizado nos Juizados da Fazenda Pública, intitulado Programa de Atendimento Humanizado em Saúde do Judiciário (PAHSJUD), com escuta qualificada, apoio psicológico e atuação integrada de profissionais do Direito, Psicologia, Serviço Social e Saúde Pública. Os objetivos específicos incluem: mapear os impactos subjetivos do processo judicial na saúde mental dos assistidos; analisar experiências exitosas em outros contextos; e elaborar diretrizes para replicação do modelo proposto. A metodologia adotada é qualitativa, ancorada na pesquisa-ação, com análise de processos judiciais, entrevistas semiestruturadas com jurisdicionados e realização de grupos focais, além da observação participante. Parte-se da hipótese de que a ausência de acolhimento institucional e de escuta qualificada agrava o sofrimento psíquico dos vulneráveis, dificultando inclusive o próprio acesso à justiça. Supõe-se também que práticas baseadas na ética do cuidado podem atenuar tais efeitos e fortalecer a confiança institucional. Como resultados parciais, identificou-se a predominância de experiências marcadas por solidão, insegurança e sobrecarga emocional entre os requerentes. A escuta qualificada tem se mostrado eficaz na redução da tensão emocional e no fortalecimento dos vínculos com as instituições. Esses achados reforçam a urgência de institucionalização de práticas éticas e interdisciplinares no atendimento judicial à saúde, contribuindo para a construção de um Judiciário mais sensível, inclusivo e comprometido com os direitos humanos.

Publicado

06.10.2025

Edição

Seção

Simpósio P37 - DIREITOS HUMANOS E SAÚDE MENTAL: DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS E ESTRAT