INTERSEÇÕES IMPLÍCITAS ENTRE O “FEMINISMO” RUSSO-SOVIÉTICO E A TEORIA RACIAL BRASILEIRA
Resumo
No final do século XIX e ao longo do século XX, mulheres intelectuais da Rússia e da União Soviética, como Alexandra Kollontai construíram um legado teórico revolucionário ao vincular a emancipação feminina à transformação socialista, articulando gênero, sexualidade e classe como eixos indissociáveis de libertação. Embora suas obras não tematizassem explicitamente a raça, seus escritos criticavam estruturas opressoras e defendiam a desconstrução de hierarquias naturais — princípios que ecoam, de forma surpreendente, na Teoria Racial Brasileira desenvolvida a partir da segunda metade do século XX, com pensadoras como Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro. Justifica-se este diálogo transnacional e temporal pela necessidade de confrontar duas lacunas historiográficas: a invisibilização das mulheres soviéticas nos debates globais sobre teoria crítica, frequentemente centrados em vozes masculinas e eurocêntricas, e a desconexão entre o pensamento socialista não ocidental e as epistemologias anticoloniais latino-americanas, que raramente são lidas em conjunto. O problema central reside na aparente incompatibilidade entre um contexto soviético que relegou a raça a um "problema capitalista" — priorizando classe e gênero — e um contexto brasileiro pós-colonial, onde raça é estrutural devido ao legado da escravidão. Questiona-se, assim, como os princípios de crítica ao poder e libertação coletiva presentes na literatura de Kollontai podem ser reinterpretados à luz da Teoria Racial Brasileira, mesmo que a raça não fosse um conceito explícito em seus textos. A hipótese que orienta esta investigação é que as teóricas soviéticas, em especial Kollontai, ao defenderem a emancipação feminina como parte integrante da revolução socialista, desenvolveram um arcabouço crítico que compartilha fundamentos com a teoria racial brasileira — como a denúncia da violência epistêmica, do historicídio, do racismo epistêmico e da naturalização de hierarquias — permitindo uma releitura decolonial que integre a raça a análises originalmente centradas em classe e gênero. O objetivo geral é analisar essas convergências teóricas, reinterpretando o legado de Kollontai e das russo-soviéticas à luz de uma perspectiva racial crítica. Para isso, o primeiro capítulo apresentará a noção de "libertação coletiva" e de crítica ao poder em Alexandra Kollontai; o segundo capítulo enfrentará o desafio metodológico de aproximar a Teoria da Raça Brasileira, em especial aquela desenvolvida por Lélia Gonzáles e Sueli Carneiro, objetivando demonstrar como os conceitos de epistemicídio, historicídio e racismo epistêmico se articulam para aproximar essas teóricas ao pensamento revolucionário russo-soviético de Kollontai; o terceiro capítulo situará o debate na reinterpretação decolonial do feminismo soviético, inserindo-o em diálogo com as teóricas Gonzalez e Carneiro para ampliar sua relevância em lutas contemporâneas por justiça social. O método de abordagem será combinado: dialético e dedutivo; o método de procedimento será monográfico, com o auxílio de fontes primárias e secundárias. A originalidade desta proposta reside em desafiar duas invisibilidades: primeiro, reposicionar mulheres soviéticas como Kollontai no centro da teoria crítica, confrontando a predominância de vozes masculinas e europeias; segundo, romper com a dependência de referenciais estadunidenses e europeus nos estudos antirracistas, construindo pontes entre o socialismo soviético e a teoria racial latino-americana.