ALÉM DA HETERONORMATIVIDADE
A DIVISÃO DO CUIDADO EM RELAÇÕES LÉSBICAS
Palavras-chave:
TRABALHO DE CUIDADO, RELAÇÕES LÉSBICAS, GÊNERO, TRABALHO FEMININOResumo
O trabalho de cuidado tem ocupado lugar central nos debates sobre gênero e organização social, especialmente diante do reconhecimento de sua função vital para a reprodução da vida. No entanto, quando esse cuidado ocorre fora dos modelos heteronormativos, como em relações lésbicas, ele permanece amplamente negligenciado. A marginalização histórica dessas vivências decorre da aliança entre patriarcado e heterossexualidade compulsória, que institui a invisibilidade como norma para arranjos afetivos entre mulheres (Federici, 2019; Navarro-Swain, 2000). Soma-se a isso o predomínio de abordagens acadêmicas que favorecem experiências masculinas na discussão sobre sexualidade, como aponta Butler (2003), perpetuando lacunas no entendimento da divisão do trabalho de cuidado em contextos lésbicos. A presente pesquisa teve como objetivo analisar a divisão do trabalho de cuidado em relações lésbicas, com foco na distribuição das tarefas domésticas e de cuidado no ambiente familiar. Partiu-se da hipótese de que essas relações seriam marcadas por práticas mais igualitárias em comparação às relações heterossexuais. Para isso, realizou-se uma revisão integrativa da literatura, sem recorte temporal, a partir da busca de artigos em português, inglês e espanhol nas bases SciELO, BVS Regional, Scopus e Web of Science. Foram utilizados descritores relacionados a cuidado, trabalho doméstico e relações lésbicas, totalizando quatro artigos selecionados a partir de critérios de relevância, acessibilidade e aderência à temática. Os resultados apontaram que a divisão do trabalho de cuidado em relações lésbicas não segue um padrão fixo. A organização das tarefas tende a considerar variáveis como disponibilidade de tempo, habilidades específicas e preferências individuais. Isso revela uma divisão mais contextual e menos rígida, que tende a ser percebida como mais equilibrada e satisfatória pelas parceiras. Observou-se também que, mesmo em contextos que rejeitam modelos heteronormativos, certas pressões sociais e expectativas de gênero continuam influenciando a organização do cuidado, revelando tensões entre práticas cotidianas e discursos de igualdade. Esse panorama aponta para a necessidade de ampliar o debate sobre o cuidado em arranjos familiares não hegemônicos, bem como de reconhecer a diversidade de experiências e dinâmicas presentes nas relações lésbicas. A pesquisa contribui para preencher uma lacuna ainda pouco explorada nos estudos de gênero e cuidado, ao visibilizar trajetórias e arranjos que desafiam normas tradicionais, mas que não estão isentos de contradições.