“PARECE QUE EU NÃO VIVO, EU VEGETO”
A EXPERIÊNCIA DE MULHERES EM SITUAÇÃO DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E O PAPEL DA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE NO BRASIL
Palavras-chave:
VIOLÊNCIA DOMÉSTICA; ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE; VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER; LEI MARIA DA PENHA; POLÍTICA NACIONAL DE ENFRENTAMENTO À VIOLÊNCIA CONTRA A MULHERResumo
A violência doméstica é um fenômeno atravessado por diferentes marcadores sociais sendo uma realidade presente no Distrito Federal, capital do Brasil, afetando a vida de milhares de mulheres. Ao mesmo tempo, como questão de saúde pública, os profissionais da Atenção Primária à Saúde, que é o primeiro nível de atenção dentro do Sistema Único de Saúde brasileiro - e que tem como eixo motriz a atenção a nível individual e coletivo considerando aspectos socioculturais, ambientais e econômicos da comunidade propiciando ações de promoção, proteção e recuperação da saúde – podem e devem desempenhar um importante papel no apoio às mulheres vítimas de violência através de seus atendimentos ambulatoriais. Esta pesquisa teve por objetivo compreender e analisar as manifestações de violência contra mulheres, moradoras de uma região rural do Distrito Federal brasileiro, e como se dá a percepção e conduta dos profissionais de saúde da Unidade Básica de Saúde (UBS) da região adstrita, quando se trata sobre o atendimento a mulheres vivendo essa situação. Esta pesquisa se justifica na urgência de pontuar como, ainda que as políticas de saúde e de enfrentamento à violência contra mulheres sejam bem delineadas, a aplicação na prática ainda não é efetiva. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, usando as técnicas de observação participante e realização de entrevistas semiestruturadas com mulheres vítimas de violência doméstica e os profissionais de saúde da UBS onde elas são usuárias. Com a análise da entrevista utilizando o método de biografia coletiva, chegou-se a um resultado que mostra um panorama comum, desde a infância até a vida adulta, de como essas mulheres vivenciaram as experiências de violências e como algumas conseguiram sair desses ciclos enquanto outras persistiram. O resultado da biografia coletiva dessas mulheres corrobora com o ciclo de violência vivenciado por muitas mulheres de outras situações demográficas e socioeconômicas encontradas na literatura, mostrando como a ação desse tipo de violência perpetua em diferentes realidades. Os resultados das entrevistas com os profissionais de saúde demonstraram empatia, ações voltadas para o cuidado, mas ao mesmo tempo, reconhecimento sobre a falta de capacitação para melhor atendimento dessas mulheres. Para tratar melhor as questões levantadas nas entrevistas, os temas foram divididos e tratados a partir da tipologia de violência, segundo a Lei Maria da Penha, debatendo os relatos das mulheres e dos profissionais com o que diz esta lei e a Política Nacional de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher. Consideramos que a rede de enfrentamento à violência possui diversas lacunas, despreparo e falta de capacitação profissional, falta de comunicação entre os setores multidisciplinares além de apoio individualizado para cada mulher em situação de violência.