TRABALHO PRECARIZADO E GÊNERO

A NEGAÇÃO DE DIREITOS HUMANOS ÀS ENTREGADORAS DE APLICATIVO NO BRASIL

Autores

  • Nicolle Goncalves Universidade de Brasília

Palavras-chave:

VIOLÊNCIA DE GÊNERO, DIREITOS HUMANOS, PRECARIZAÇÃO LABORAL, ENTREGADORAS DE APLICATIVO

Resumo

O presente trabalho tem como objetivo lançar um olhar inicial sobre as múltiplas formas de violência de gênero que perpassam o cotidiano das entregadoras de aplicativo no Brasil, tendo como ponto de partida seus próprios relatos e experiências. Como demonstram diversos estudos sobre o trabalho plataformizado, a atividade de entregas sob demanda tem se constituído como um espaço de precarização estrutural, no qual se articulam exploração laboral, ausência de proteção social e apagamento das especificidades de gênero que moldam profundamente as vivências dessas trabalhadoras. Nesse contexto, os relatos das entregadoras revelam jornadas exaustivas, instabilidade financeira, sobrecarga do trabalho de cuidado, dificuldades de acesso amplo e seguro ao espaço urbano e múltiplas formas de violência sexista, que vão desde o assédio no exercício da função até a omissão institucional diante de suas demandas específicas. Trata-se, portanto, de uma experiência marcada pela interseção entre desigualdade de gênero, classe e território. Para a construção desta análise, serão mobilizados os relatos colhidos em pesquisa qualitativa conduzida pelo Grupo de Pesquisa Trabalho e Teoria Social, vinculado ao Departamento de Sociologia e ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade de Brasília (UnB), realizada no Distrito Federal em 2024 e 2025. A pesquisa buscou compreender a realidade cotidiana de trabalhadores e trabalhadoras de entrega por aplicativo, com especial atenção aos efeitos da plataformização sobre suas condições de vida e trabalho. Neste trabalho, o foco recairá sobre os depoimentos das mulheres entregadoras, cujas trajetórias evidenciam como as violências domésticas e laborais se entrelaçam em um ciclo contínuo de vulnerabilização. Além disso, serão utilizados como fonte complementar os relatos apresentados por entregadoras em duas audiências públicas realizadas na Câmara dos Deputados em 2025. A primeira, ocorrida em 23 de abril, foi convocada pelo Deputado Federal Guilherme Boulos; a segunda, em 22 de maio, por iniciativa da Deputada Federal Erika Kokay. Em ambas as ocasiões, as trabalhadoras compartilharam vivências que revelam as rotinas extremamente duras que enfrentam, tanto no trabalho quanto no cuidado com seus filhos e familiares, expondo a negligência das plataformas digitais e do Estado diante das desigualdades estruturais que as atravessam. A hipótese aqui ventilada é que a violência que essas mulheres sofrem se configura como um processo cotidiano de negação de direitos - à segurança, à mobilidade, ao descanso, ao reconhecimento profissional e à dignidade. Ao serem empurradas para a informalidade digital, sem garantias trabalhistas ou proteção institucional, essas trabalhadoras ocupam um lugar social que as torna particularmente vulneráveis às injúrias do sexismo estrutural e do racismo, muitas vezes agravado por sua condição de mães solo e moradoras das periferias urbanas. Assim, este trabalho propõe refletir sobre como o trabalho por aplicativo, longe de representar uma alternativa emancipatória, aprofunda as assimetrias de gênero e classe, ao mesmo tempo em que naturaliza formas renovadas de exploração e exclusão.

Publicado

03.10.2025

Edição

Seção

Simpósio On122 - VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR (UMA VIOLÊNCIA DE GÊNERO)