ENVELHECIMENTO E QUESTÕES DE GÊNERO E RAÇA
Palavras-chave:
Desigualdades sociais, envelhecimento, interseccionalidadeResumo
O processo de envelhecimento humano no Brasil é um fenômeno marcado por diversas desigualdades sociais, especialmente as de gênero e raça, que afetam diretamente a experiência da velhice, influenciando o acesso a direitos, a qualidade de vida e as oportunidades de participação social, com um impacto mais acentuado sobre mulheres negras e indivíduos que vivem em regiões periféricas. Neste sentido, de acordo com o Ipea (2024) idosos negros e pardos enfrentam piores condições de saúde, menor expectativa de vida e níveis mais baixos de escolaridade, refletindo o legado do racismo estrutural e as barreiras impostas por uma sociedade excludente e patriarcal. A velhice deve ser reconhecida não apenas como um evento biológico, mas como uma construção social e histórica, que envolve múltiplos aspectos interseccionais determinantes do lugar do idoso na sociedade. Igualmente, questionar os padrões utilitários da sociedade capitalista é essencial para compreender e enfrentar os preconceitos e estigmas ainda persistentes. Diante desse contexto, a pesquisa busca responder à seguinte questão: de que maneira as desigualdades de gênero e raça impactam o processo de envelhecimento no Brasil, influenciando o acesso a direitos, a qualidade de vida e a inclusão social da população idosa? O presente trabalho tem como objetivo geral compreender a velhice enquanto uma construção social e histórica, caracterizada pela heterogeneidade, identificando o lugar social do idoso e promovendo a superação de preconceitos, estigmas e padrões excludentes dominantes, por meio da análise das interseccionalidades de gênero e raça no contexto brasileiro. A compreensão da velhice ultrapassa os limites da biologia para situar-se nas complexas teias sociais, históricas e culturais, onde questões de gênero e raça desempenham papel central na determinação das condições de envelhecimento no Brasil. Historicamente, os significados atribuídos à velhice refletem as hierarquias e normas predominantes em cada sociedade. No Brasil, o patriarcado e o racismo estrutural consolidaram estigmas contra idosos, especialmente mulheres negras, que enfrentam sucessivas camadas de vulnerabilidade ao longo da vida. Como será demonstrado, a raça impõe uma dimensão adicional de desigualdade. Idosos negros e pardos frequentemente apresentam piores condições de saúde, menores rendimentos, baixos níveis de escolaridade e expectativas de vida reduzidas em comparação à população branca, como resultado do legado da escravização e da segregação socioeconômica. O Censo Demográfico 2022 apurou que, enquanto 55,5% da população brasileira se autodeclara como negra, entre os idosos a proporção comparável é de 47,2%. Isto significa que, proporcionalmente, os não negros compõem a maioria da população idosa, o que sugere maiores dificuldades experimentadas pela população negra para chegar à velhice, como morte precoce, migração e/ou diferenças por idade na autodeclaração da raça/cor. Essas desigualdades são reforçadas por processos históricos de marginalização que se refletem nas políticas públicas insuficientes e no limitado acesso aos bens e serviços próprios do envelhecimento digno. Portanto, a compreensão da velhice a partir das lentes de gênero e raça desafia a neutralidade frequentemente atribuída ao processo de envelhecimento e denuncia a persistência de mecanismos de opressão e exclusão que acompanham indivíduos ao longo de suas vidas.