REDES SOCIAIS E MOBILIZAÇÃO DAS MASSAS

UMA DISCUSSÃO A PARTIR DA ANÁLISE DE HANNAH ARENDT SOBRE O TOTALITARISMO

Autores

  • Renato de Oliveira Pereira UNESP, Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Filosofia e Ciências, Marília

Palavras-chave:

Redes sociais, Desamparo, Mobilização das massas, Discurso de ódio, Hannah Arendt

Resumo

O objetivo desta comunicação é, a partir do diagnóstico arendtiano acerca dos regimes totalitários, lançar luz sobre o problema político colocado pelas realidades virtualizadas. Em Origens do totalitarismo, Hannah Arendt afirma que, na modernidade, a experiência que caracteriza a sociedade de massa é a solidão ou desamparo (loneliness). Ao serem reduzidos ao modo de vida do animal laborans, isto é, a seres que apenas trabalham e consomem, os indivíduos acabam por não se relacionar uns com outros, o que os faz se sentirem isolados tanto no âmbito público quanto no privado. É essa experiência do desamparo que, segundo Arendt, os regimes totalitários exploraram para arregimentar as massas, fazendo os indivíduos adquirirem um sentido para suas vidas ao acreditarem ser parte de algo maior que eles mesmos. O que o totalitarismo faz, portanto, é reunir sob “a lógica de uma ideia” uma massa amorfa de seres humanos isolados, utilizando-se do terror e também da propaganda. Se nos anos 1990 a internet era vista com otimismo pela possibilidade de universalizar o acesso à informação e de expandir a democracia ao permitir espaços virtuais para discussão e deliberação públicas, as últimas duas décadas mostraram que essa esperança não se realizou. Pelo contrário, em vez de representar a revitalização do espaço público, a internet e as redes sociais dominadas pelas Big Techs e seus algoritmos, com praticamente nenhum controle por parte de governos e sociedades, tornaram-se espaços de difusão de discursos de ódio e de radicalização política. Ao buscar contato com os outros nas redes, os indivíduos têm seus dados extraídos e explorados economicamente pelas plataformas (Zuboff, 2020).  Visando atrair a atenção e aumentar o engajamento, as redes sociais acabam por funcionar como verdadeiras “câmaras de eco” nas quais os quais os indivíduos, reduzidos a “usuários”, ouvem apenas a sua própria voz e veem apenas aquilo que já acreditam, sem referência a qualquer outro tipo de experiência e visão de mundo. A pluralidade de opiniões e visões de mundo é, pois, escamoteada pelos algoritmos e tudo o que é diferente passa a ser evitado. Assim, a própria figura do outro parece ainda mais execrável, o que torna as redes sociais um solo fértil para a proliferação de discursos de ódio contra imigrantes, negros, mulheres, LGBTQUIA+, pobres, árabes, deficientes, entre outros. Não por acaso assistimos em todo mundo, desde a última década, a ascensão de partidos de extrema-direita e de regimes autocratas de viés fascista, para usar a expressão de André Singer (2022). As redes sociais parecem ter o potencial de operar com uma eficácia ainda maior o mesmo processo de mobilização e radicalização das massas realizado pelo totalitarismo. Em vez de constituir em um espaço para discussão pública, as redes são utilizadas para atrair os indivíduos e colocá-los sob uma determinada direção, em prol de um projeto de dominação baseado no ódio ao outro e na ausência de experiência da realidade factual, o que coloca em risco a existência das democracias, a garantia dos direitos humanos e o exercício da cidadania.

Publicado

03.10.2025

Edição

Seção

Simpósio On65 - OS DIREITOS HUMANOS NA ERA DAS REALIDADES VIRTUALIZADAS