FLUXO JUDICIAL DA VIOLENCIA CONTRA MULHER EM BELO HORIZONTE, MINAS GERAIS, BRASIL
Palavras-chave:
VIOLÊNCIA DOMÉTICA, JUSTIÇA CRIMINAL, VULNERABILIDADE SOCIAL, REVITIMIZAÇÃO, GÊNEROResumo
O artigo analisa o fluxo judicial da violência doméstica contra a mulher em Belo Horizonte, investigando como os casos percorrem o Sistema de Justiça Criminal e quais são os gargalos, padrões e desafios enfrentados no enfrentamento desse fenômeno. A pesquisa integra dados administrativos da segurança pública, registros policiais e informações do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, possibilitando uma análise abrangente tanto do comportamento dos crimes quanto de seu processamento judicial. O estudo demonstra que a violência doméstica não se configura como eventos isolados, mas sim como processos contínuos e recorrentes. Dados entre 2013 e 2018 revelam que mais de 46% dos autores e cerca de 32% das vítimas estiveram envolvidos em mais de um episódio de violência doméstica no período, evidenciando a persistência dos ciclos de violência. Além disso, verifica-se que o tempo médio entre os episódios sucessivos tende a diminuir, o que sinaliza uma escalada da gravidade dos casos. No plano espacial, a violência doméstica mostra-se fortemente associada a contextos de vulnerabilidade social. As análises de correlação espacial e regressão geograficamente ponderada confirmam que bairros com maiores índices de vulnerabilidade — caracterizados por alta densidade domiciliar, baixa escolarização, maior proporção de mulheres jovens e maior desigualdade racial e de renda — concentram os maiores índices de violência doméstica. Isso reforça a compreensão de que as dinâmicas de violência estão inseridas em estruturas socioeconômicas desiguais. Quanto ao fluxo no Sistema de Justiça, o artigo revela morosidade e baixa efetividade na responsabilização dos agressores. As análises de sobrevivência indicam que o tempo médio para um desfecho judicial — seja condenação ou absolvição — é elevado, e as taxas de condenação são relativamente baixas. A reincidência também é elevada, inclusive entre casos que passaram pelo sistema judicial, sugerindo limitações na capacidade da Justiça em interromper os ciclos de violência. O artigo também discute como as características sociodemográficas dos envolvidos — gênero, cor, escolaridade e tipo de vínculo entre vítima e autor — influenciam tanto as probabilidades de condenação quanto de reincidência. Observa-se, por exemplo, que relações com ex-companheiros apresentam maiores chances de reincidência e que mulheres jovens estão mais expostas à revitimização. Ao final, os resultados indicam a necessidade urgente de uma atuação mais articulada entre os sistemas de segurança, justiça e assistência social, com foco na prevenção, proteção e rompimento dos ciclos de violência. Além disso, reforçam o papel das desigualdades estruturais na reprodução da violência de gênero, exigindo políticas públicas que enfrentem tanto a violência direta quanto seus determinantes sociais.