A Inteligência Artificial vai/não vai roubar seu emprego
Discursos sobre tecnologia como articuladores de identidade no Tecnofeudalismo e no Colonialismo Digital
Palavras-chave:
Inteligência Artificial, Mercado de trabalho, Jornalismo, Análise de discurso, Tecnofeudalismo, IdentificaçãoResumo
A presente pesquisa pretende mapear os discursos enunciados por agentes das grandes indústrias de tecnologia sediadas no chamado Vale do Silício e reproduzidos na grande imprensa, ou alinhados com os posicionamentos desses agentes, sobre os efeitos de produtos digitais – principalmente a dita Inteligência Artificial – em diferentes mercados de trabalho. Para esta tarefa, utilizamos a teoria do discurso desenvolvida por Chantal Mouffe e Ernesto Laclau para analisar cerca de 200 artigos publicados no jornal A Folha de S.Paulo, desde o mês de lançamento da mais conhecida ferramenta de inteligência artificial, o ChatGPT da empresa OpenAI, em novembro de 2023, até o início de junho de 2025, contendo obrigatoriamente os termos “mercado de trabalho”, “emprego”, “inteligência artificial” e podendo conter os termos “Big Tech”, “Vale do Silício”, “empreendedorismo”, “empreender” e “empreendedor”. Amparados pelas obras de Jacques Lacan, Slavoj Zizek, Judith Butler, Christian Duncker, Letícia Cesarino e Vladimir Safatle, abordamos os discursos contendo uma abordagem pessimista e descolada da realidade, na qual a adoção ampla de tecnologia promoverá uma vasta redução em postos de trabalho em determinados segmentos do mercado de trabalho ou que levarão à extinção de profissões ou funções por completo, principalmente quanto ao uso dos afetos negativos – e o desamparo como afeto-chave – para a mobilização de grupos de sujeitos posicionados pela identificação com esses discursos. Utilizamos os trabalhos de Shoshana Zuboff, Karen Hao, Nancy Fraser, Mark Fisher, Yanis Varoufakis, Emily Bender, Alex Hannah, José Luiz Aidar Prado e Sérgio Amadeus Silveira para contextualizar estes discursos no atual momento do Capitalismo, que nos parece ter entrado num novo momento, no qual o esgotamento ou superação – econômica, política ou social – de modelos anteriores de exploração posicionou as tecnologias digitais como novas ferramentas de extração de valor, monitoramento e controle (ideológico e comportamental) dos indivíduos, suscitando a ascensão de uma nova e reduzida classe de multibilionários que transformaram os espaços digitais em feudos sob seu controle e as regiões do Sul Global em colônias a serem exploradas e civilizadas, onde os habitantes tem mais valor por seus corpos e o que pode ser extraído deles do que por qualquer produção que possa vir de seu trabalho. Contextualizamos, também, a atuação da mídia moderna, observando pensadores da profissão jornalística e dos veículos de comunicação como Yoshai Benkler, Joan Donovan, Victor Pickard, Michael Schudson, Nina Jankowicz, Margot Susca, Rogério Christofoletti, Serena Giusti, Oscar Pilagallo e Alan Rusbridger, por considerarmos que é imprescindível compreender como a imprensa atua nos dias de hoje, num momento de crise multifacetada, e como ela se torna espaço em disputa por discursos buscando a hegemonia.