DA HIERARQUIZAÇÃO DE CAPITAIS NOS/DOS DISCURSOS POLÍTICO-CURRICULARES
Palavras-chave:
Currículo, Formação do músico popular, Curso de Música, Cânone, Discursos político-curricularesResumo
Este texto apresenta recorte de pesquisa em andamento, para escrita de tese de doutoramento, que investiga a formação do músico popular prescrita em textos/documentos curriculares no/do ensino superior em Música. Nesta proposição, aproximamo-nos dos discursos político-curriculares, uma vez que estes representam uma perspectiva de superação da normatividade existente (seu componente utópico, normativo, filosófico), e da problematização dos cânones relativos à inserção e à manutenção da música popular no ensino superior. Para tanto, pautados nos estudos do campo da educação crítica, aproximados do referencial bourdieusiano e da sociologia do currículo, operamos com conceitos fundamentais para o debate, isto é, a disposição do habitus, o poder simbólico e a formação do gosto como resultante de capitais culturais. Apreendemos os cânones do campo acadêmico-musical como fruto de uma tradição seletiva que vem, historicamente, naturalizando a legitimação de determinados repertórios e práticas. Neste sentido, questionamos a lógica dos conhecimentos disciplinares, que toma os saberes dominantes como dados, ofertando a eles tal caráter legítimo, privilegiando os herdeiros dos capitais dominantes, reafirmando os privilégios sociais, permitindo o vislumbre de um retrato da violência simbólica. Violência, esta, responsável pela perpetuação da desigualdade cultural dentro do espaço da Universidade, interpenetrada por discursos político-curriculares, criadores de significados, baseados na noção de currículo como parte da política oficial de conhecimento. Nesta condição, definido por requisitos e padrões tornados importantes para uma educação que atenda, simultaneamente, aos interesses do mercado e a valores conservadores. Para localizar essa problematização e apreender as atuações dos discursos e os processos de instituições de ideologias musicais, utilizamos como fontes os textos/documentos curriculares dos Cursos de Música selecionados, entendidos como expressões do diálogo com as Diretrizes Curriculares Nacionais aprovadas nos termos da Resolução CNE/CES nº 2, de 8 de março de 2004, sobre o Curso de Graduação em Música (BRASIL, 2004). A operação metodológica da investigação é orientada pelos Estudos Comparados (SILVA, 2016, 2019) de natureza bibliográfico documental, inscritos em uma investigação dos processos educativos e dos sentidos dos fenômenos curriculares nesses processos. Neste contexto, estamos direcionados pela identificação dos vestígios do funcionamento de uma normatividade conservatorial (oriunda da institucionalização da formação musical no Brasil, a partir do modelo dos Conservatórios europeus, fortemente dominados pela "música clássica"). Em síntese, é possível inferir que a distinção do músico popular não é dada pelas Diretrizes, mas pelos textos/documentos curriculares dos Cursos de Música, posicionados na perspectiva de superação de uma série de problemas e falsos dilemas em torno do erudito versus o popular, ao mesmo tempo em que salvaguarda todo esforço do artista para se desembaraçar do peso das determinações externas aos campos da música e da cultura, o que constitui a razão de grandeza da estrutura estruturada do campo.