RACISMO AMBIENTAL E INJUSTIÇA SOCIOAMBIENTAL

UM OLHAR A PARTIR DAS INTERSECÇÕES DE GÊNERO, RAÇA, CLASSE E TERRITÓRIO

Autores

  • Barbara Oliveira de Morais Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC RIO)
  • Valéria Pereira Bastos Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC RIO)

Palavras-chave:

ZONAS DE SACRIFÍCIO, QUESTÕES SOCIOAMBIENTAIS, JARDIM GRAMACHO, RACISMO AMBIENTAL

Resumo

À medida que o sistema capitalista aprofunda suas contradições, sustentando-se pela exploração ambiental e social, agravam-se os efeitos do racismo ambiental, cujos impactos recaem desproporcionalmente sobre as populações negras, sobretudo mulheres negras que vivem nas periferias urbanas e atuam na catação de materiais recicláveis. Esta pesquisa propõe uma reflexão crítica sobre as questões socioambientais, analisando suas interseções com as desigualdades de gênero, raça e classe em uma sociedade estruturada sob os pilares do capitalismo, do patriarcado e do racismo. O estudo busca preencher lacunas na literatura ao abordar as injustiças ambientais e raciais sob uma perspectiva decolonial e interseccional, evidenciando como os marcadores sociais da diferença – como gênero, raça, classe e território – se entrelaçam na distribuição desigual dos custos ambientais. Nesse sentido, o foco recai sobre a realidade vivida por mulheres negras que atuam como catadoras de materiais recicláveis no território de Jardim Gramacho, localizado em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense do Rio de Janeiro. Durante mais de três décadas, o local abrigou o maior lixão da América Latina e passou a ser estigmatizado como um “território do lixo”. Compreendemos, assim, que a questão socioambiental se configura como uma das expressões da questão social. A partir disso, realizamos uma análise crítica do panorama vivenciado pelas catadoras de Jardim Gramacho, especialmente após o encerramento do Aterro Metropolitano em 2012. Nosso objetivo foi discutir as promessas de políticas públicas não cumpridas, articulando esse debate com as expressões do racismo estrutural, tendo em vista que os grupos étnico-raciais que residem no sub-bairro – atravessados também pelas dimensões de gênero e classe – seguem vivenciando os maiores impactos das degradações e conflitos socioambientais. Esses impactos persistem até os dias atuais, reforçando processos de marginalização, violência e precarização nos territórios periféricos, como expressão do racismo ambiental. Constata-se, portanto, que esses grupos enfrentam obstáculos também no acesso aos espaços urbanos e aos recursos ecológicos, aprofundando desigualdades históricas. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, com abordagem bibliográfica e documental, orientada pelos pressupostos do materialismo histórico-dialético, em diálogo com as perspectivas decoloniais e interseccionais. A pesquisa foi realizada entre os anos de 2021 e 2024, com a participação de mulheres com trajetórias diversas, que atuaram em diferentes momentos históricos: algumas no antigo lixão, outras em cooperativas, depósitos ou como catadoras autônomas. A partir das narrativas dessas mulheres, buscamos compreender como as condições locais e as dinâmicas socioambientais de Jardim Gramacho impõem desafios específicos àquelas que desempenham essa atividade, destacando os efeitos das relações entre capital e trabalho em suas vidas e territórios. O território revela um acúmulo de camadas históricas de abandono, estigmatização e violência territorial, funcionando como uma zona de sacrifício. Essa lógica é sustentada por processos contínuos de racialização e exclusão espacial, herdados das dinâmicas do projeto colonial e perpetuados pelo capitalismo periférico.

Biografia do Autor

Barbara Oliveira de Morais, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC RIO)

Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RIO). Mestra pelo Programa de Pós-graduação em Práticas em Desenvolvimento Sustentável (PPGPDS) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Especialista através do Programa Nacional em Administração Pública (PNAP) nos três níveis: em Gestão Pública pela Universidade Federal de São João Del Rei (2017), em Gestão Pública Municipal pela Universidade Federal de Juiz de Fora (2017) e em Gestão em Saúde Pública pela Universidade Federal Fluminense (2020). Especialista em Ciências da Natureza, suas Tecnologias e o Mundo do Trabalho pela Universidade Federal do Piauí (2022) e Especialista em Educação a distância: Elaboração de Material pela Universidade Cruzeiro do Sul (2023). Bacharel em Administração Pública pela Universidade Federal Fluminense (2017) e Licenciada em Geografia pela Universidade Cruzeiro do Sul (2022). Aperfeiçoada em Empreendedorismo e Inovação pela Universidade Federal Fluminense (2015) e em Implementação da Política Nacional de Promoção da Saúde: Programa Academia da Saúde (2016). Atualmente cursa Bacharelado em Serviço Social pela Universidade Cruzeiro do Sul (2021). Possui experiência em Gestão de Pessoas, Negócios e Finanças Pública e Privada. Atuou como Professora através de vínculo temporário em Fundações Públicas de Ensino e Instituições Públicas e Privadas de Ensino Técnico e Ensino Superior. Tem interesse em temas interdisciplinares, tendo trabalhado nos últimos anos com EAD, Gestão Pública nos três níveis de governo, Meio Ambiente e Sustentabilidade, Educação Ambiental, Memória, Gênero, Desigualdade e Pobreza. Atuou como Tutora a distância no Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG) no curso de Gestão Pública e como Tutora a distância no Instituto Federal do Sul de Minas Gerais (IFSULDEMINAS) nos cursos técnicos de Qualidade, Logística e Administração. Ministrou disciplinas no curso de Graduação em Gestão do Agronegócio pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA)

Valéria Pereira Bastos, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC RIO)

É doutora em Serviço Social, sua área de pesquisa está voltada para o estudo das Questões Socioambientais, Urbanas e Formas de Resistência Social, é Professora Associada I da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio do Departamento de Serviço Social é Líder do Grupo Interdisciplinar de Pesquisa e Estudos Socioambientais e Comunitários - GRIPES e integrante do Laboratório de Estudos Urbanos e Socioambientais - LEUS. Autora do livro Profissão: Catador. Um estudo da construção identitária, lançado pela Editora Letra Capital em dezembro 2014. Pesquisadora apoiada pelo CNPq na modalidade PQ2 e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro- FAPERJ - Jovem Cientista do Nosso Estado. Sua experiência é com ênfase em trabalho social voltado para o contexto socioambiental com Catadores de Materiais Recicláveis, atuando principalmente nos seguintes temas: Trabalho Precarizado, Exclusão Social, Políticas Sociais e Contemporaneidade. Participa do Grupo Temático de Pesquisa (GTP) "Questões Agrária, Urbana, Ambiental e Serviço Social" da Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS). Participa do Comitê Regional "Direito à Cidade" do Conselho Regional de Serviço Social CRESS/ 7ª. Região - Rio de Janeiro. Registrada no ORCID ID sob nº 0000-0001-7412-0353.

Publicado

03.10.2025

Edição

Seção

Simpósio On88 - MEIO AMBIENTE COMO DIREITO HUMANO FUNDAMENTAL