RACISMO AMBIENTAL E INJUSTIÇA SOCIOAMBIENTAL
UM OLHAR A PARTIR DAS INTERSECÇÕES DE GÊNERO, RAÇA, CLASSE E TERRITÓRIO
Keywords:
ZONAS DE SACRIFÍCIO, QUESTÕES SOCIOAMBIENTAIS, JARDIM GRAMACHO, RACISMO AMBIENTALAbstract
À medida que o sistema capitalista aprofunda suas contradições, sustentando-se pela exploração ambiental e social, agravam-se os efeitos do racismo ambiental, cujos impactos recaem desproporcionalmente sobre as populações negras, sobretudo mulheres negras que vivem nas periferias urbanas e atuam na catação de materiais recicláveis. Esta pesquisa propõe uma reflexão crítica sobre as questões socioambientais, analisando suas interseções com as desigualdades de gênero, raça e classe em uma sociedade estruturada sob os pilares do capitalismo, do patriarcado e do racismo. O estudo busca preencher lacunas na literatura ao abordar as injustiças ambientais e raciais sob uma perspectiva decolonial e interseccional, evidenciando como os marcadores sociais da diferença – como gênero, raça, classe e território – se entrelaçam na distribuição desigual dos custos ambientais. Nesse sentido, o foco recai sobre a realidade vivida por mulheres negras que atuam como catadoras de materiais recicláveis no território de Jardim Gramacho, localizado em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense do Rio de Janeiro. Durante mais de três décadas, o local abrigou o maior lixão da América Latina e passou a ser estigmatizado como um “território do lixo”. Compreendemos, assim, que a questão socioambiental se configura como uma das expressões da questão social. A partir disso, realizamos uma análise crítica do panorama vivenciado pelas catadoras de Jardim Gramacho, especialmente após o encerramento do Aterro Metropolitano em 2012. Nosso objetivo foi discutir as promessas de políticas públicas não cumpridas, articulando esse debate com as expressões do racismo estrutural, tendo em vista que os grupos étnico-raciais que residem no sub-bairro – atravessados também pelas dimensões de gênero e classe – seguem vivenciando os maiores impactos das degradações e conflitos socioambientais. Esses impactos persistem até os dias atuais, reforçando processos de marginalização, violência e precarização nos territórios periféricos, como expressão do racismo ambiental. Constata-se, portanto, que esses grupos enfrentam obstáculos também no acesso aos espaços urbanos e aos recursos ecológicos, aprofundando desigualdades históricas. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, com abordagem bibliográfica e documental, orientada pelos pressupostos do materialismo histórico-dialético, em diálogo com as perspectivas decoloniais e interseccionais. A pesquisa foi realizada entre os anos de 2021 e 2024, com a participação de mulheres com trajetórias diversas, que atuaram em diferentes momentos históricos: algumas no antigo lixão, outras em cooperativas, depósitos ou como catadoras autônomas. A partir das narrativas dessas mulheres, buscamos compreender como as condições locais e as dinâmicas socioambientais de Jardim Gramacho impõem desafios específicos àquelas que desempenham essa atividade, destacando os efeitos das relações entre capital e trabalho em suas vidas e territórios. O território revela um acúmulo de camadas históricas de abandono, estigmatização e violência territorial, funcionando como uma zona de sacrifício. Essa lógica é sustentada por processos contínuos de racialização e exclusão espacial, herdados das dinâmicas do projeto colonial e perpetuados pelo capitalismo periférico.