INFÂNCIA E MORTE SOCIAL

A CRIMINALIZAÇÃO DA JUVENTUDE NEGRA EM “CAPITÃES DA AREIA” E OS REFLEXOS DA NECROPOLÍTICA NA CONTEMPORANEIDADE BRASILEIRA

Autores

  • Larissa Aguiar Brito Faculdade Santo Agostinho de Vitória da Conquista

Palavras-chave:

NECROPOLÍTICA, JUVENTUDE NEGRA, MORTE SOCIAL, RACISMO ESTRUTURAL, DIREITO E LITERATURA

Resumo

Este trabalho tem por objeto a análise da obra Capitães da Areia, de Jorge Amado, sob a perspectiva crítica da necropolítica e do racismo estrutural, com o propósito de compreender como a literatura antecipa e denuncia os mecanismos históricos de exclusão e criminalização da infância e juventude negras no Brasil. Publicado em 1937, o romance retrata a vida de meninos em situação de rua em Salvador, sujeitos à repressão policial, à fome, à privação de direitos fundamentais e ao abandono institucional. A justificativa da pesquisa reside na atualidade do texto literário, que revela a permanência de práticas estatais seletivas voltadas a corpos vulnerabilizados, evidenciando uma lógica de gestão da morte que atravessa décadas e ainda estrutura o sistema penal e de segurança pública no país. Nesse sentido, parte-se da hipótese de que há uma continuidade estrutural entre a marginalização dos personagens da obra e a realidade contemporânea da juventude negra brasileira, marcada por altos índices de letalidade policial, superencarceramento e negação sistemática de direitos. Propõe-se, assim, investigar como o romance denuncia não apenas a violência direta, mas também o processo de morte social — conceito que designa a exclusão extrema do sujeito da vida civil, cultural e política, tornando-o invisível e descartável aos olhos do Estado e da sociedade. O referencial teórico ancora-se em Achille Mbembe, que formula a necropolítica como a política de gestão da morte sobre determinados corpos, e em Silvio Almeida, cuja obra sistematiza o racismo estrutural como lógica organizadora das instituições jurídicas e sociais brasileiras. A metodologia é qualitativa, com abordagem interdisciplinar, articulando análise hermenêutica da obra literária com dados empíricos de instituições como o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Unicef e o Atlas da Violência 2025, este último evidenciando que a juventude negra permanece submetida a um padrão estrutural de exposição à violência e à violação de direitos, o que revela a persistente incapacidade das políticas públicas de alcançar esse grupo com a mesma eficácia garantida à juventude branca. Os objetivos da pesquisa são: i) demonstrar a potencialidade da literatura como instrumento crítico de leitura da realidade jurídica; ii) identificar os mecanismos de criminalização da infância pobre e negra na obra e em dados contemporâneos; iii) examinar os efeitos da necropolítica e do racismo estrutural na produção de infâncias vulnerabilizadas. Os resultados parciais apontam para a persistência de uma lógica de exclusão racializada, na qual o Estado atua não apenas por meio da repressão direta, mas também pela omissão sistemática de direitos, produzindo sujeitos socialmente mortos antes mesmo da vida adulta.

Publicado

03.10.2025

Edição

Seção

Simpósio On69 - RACISMO ESTRUTURAL E NECROPOLÍTICA