NEOCOLONIALISMO FRANCÊS, ECOLOGIA DA GUERRA E DIREITOS HUMANOS

UMA LEITURA DO CONFLITO ENTRE BENIN E NÍGER SOB A PERSPECTIVA DO TWAIL

Autores

  • Natália Bossle Demori Universidade de Caxias do Sul
  • Alexandre Cortez Fernandes Universidade de Caxias do Sul

Palavras-chave:

Direitos humanos, Ecologia da guerra, Neocolonialismo, Sahel, Twail

Resumo

O presente trabalho analisa o conflito diplomático, econômico e geopolítico entre Benin e Níger como uma manifestação do neocolonialismo francês na região do Sahel, na África. A partir do golpe militar ocorrido no Níger em julho de 2023, com expressivo apoio popular, acirram-se as tensões com Benin, sobretudo diante das denúncias de instalação de bases militares francesas em território beninense. A pesquisa parte da compreensão de que o confronto não pode ser dissociado da estrutura colonial insuflada pela Conferência de Berlim de 1884-1885, que produziu fronteiras artificiais, fragmentou povos e territórios, e estruturou uma geografia da dominação que persiste. Além das consequências geopolíticas e econômicas, a militarização, a disputa por rotas energéticas e os bloqueios comerciais edificam uma ecologia da guerra, marcada pela devastação ambiental, pela exploração predatória dos bens comuns da natureza e pela produção de zonas de sacrifício. A relevância do tema reside na necessidade de compreender como os dispositivos coloniais seguem influentes nas estruturas do direito internacional, dos direitos humanos e da governança global. O objetivo é demonstrar como o neocolonialismo francês continua sendo fator central de instabilidade no Sahel, o que leva a questionar os limites do modelo universal-ocidental de direitos humanos, propondo uma alternativa teórica a partir do movimento Third World Approaches to International Law (TWAIL). A hipótese que orienta a pesquisa sustenta que o conflito entre Benin e Níger resulta da reprodução contemporânea das dinâmicas coloniais, tanto na configuração das fronteiras quanto na relação de dependência que ancora o neocolonialismo francês na África Ocidental. O método adotado é qualitativo, baseado na análise de reportagens, documentos oficiais, tratados internacionais, registros da ONU, discursos diplomáticos nas Assembleias Gerais, além de relatórios de organizações internacionais e literatura crítica no campo do direito internacional e da decolonialidade. Os resultados parciais indicam que, para além dos impactos sociais e econômicos sobre as populações fronteiriças, o conflito (1) evidencia a seletividade das instituições multilaterais, expressa na exclusão do Níger da 78ª Assembleia Geral da ONU e na manutenção de estruturas de poder como o Conselho de Segurança, onde o veto funciona como instrumento de perpetuação das hierarquias coloniais, e (2) produz zonas de sacrifício ambiental, sustentadas pela ecologia da guerra. O trabalho conclui que é premente construir um discurso de direitos humanos a partir de uma perspectiva decolonial, fundado na autodeterminação dos povos, na soberania epistêmica e na justiça ecológica, capaz de romper com os fundamentos coloniais do direito internacional contemporâneo.

Biografia do Autor

Natália Bossle Demori, Universidade de Caxias do Sul

Mestranda em Direito pela Universidade de Caxias do Sul - Bolsista CAPES Modalidade II. Advogada. Bacharela em Direito pela Universidade de Caxias do Sul, com Láurea Acadêmica. Pós-graduada em Direito Médico e da Saúde pela Fundação Escola Superior do Ministério Público. Foi pesquisadora voluntária e bolsista de iniciação científica pela FAPERGS (2019/2022). Editora da Revista Direito Ambiental e Sociedade. Integrante do grupo de pesquisa Responsabilidade Ambiental e Ecologia Política (RAEP), vinculado ao PPGDIR/UCS. Integrante da Cátedra Sérgio Vieira de Mello da Universidade de Caxias do Sul.

Alexandre Cortez Fernandes, Universidade de Caxias do Sul

Pós-doutor em filosofia do direito. Doutor em educação pela Universidade de Caxias do Sul (UCS). Mestre em filosofia pela Universidade de Caxias do Sul (UCS). Especialista em Ensino e Pesquisa em Direito Privado. Graduado em direito. Professor da Universidade de Caxias do Sul da graduação e do mestrado e doutorado de direito. Membro do Colegiado do Curso de Direito. Membro do Núcleo Docente Estruturante do curso de direito da Universidade de Caxias do Sul (campus-sede e Campus de Vacaria). Na graduação, atua com direito civil, em especial, direito de família. No mestrado, leciona responsabilidade civil ambiental e educação ambiental. Pesquisador e líder do Grupo de Pesquisa Responsabilidade Ambiental e Ecologia Política - RAEP - do PPGDIR/UCS, CNPq e Pesquisador do grupo de pesquisa Biopolíticas da Universidade de Caxias do Sul. Professor extensionista, autor de livros e artigos na área de direito, de ética e de educação.

Publicado

03.10.2025

Edição

Seção

Simpósio P06 - DIREITOS HUMANOS UNIVERSAIS? PERSPECTIVAS CRÍTICAS E DECOLONIAIS