INTERSECÇÕES ENTRE DIREITOS HUMANOS, PRINCÍPIOS DE YOGIAKARTA E SAÚDE COLETIVA:

UM ESTUDO DE CASO DA MORTE DE UMA TRANSSEXUAL

Autores

  • ANTONIO CARLOS BELLINI-JR Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP
  • PEDRO HENRIQUE DE FARIA Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP

Palavras-chave:

Transsexual, Homicídio, Causas Externas, Saúde Coletiva, Direitos Humanos

Resumo

JUSTIFICATIVA: O Brasil é um país que se destaca negativamente nas estatísticas de violência contra pessoas LGBTQIA+, observando-se, nas últimas duas décadas, um agravamento dos números, inclusive pelo descaso das autoridades públicas no enfrentamento dessa problemática. OBJETIVO: Analisar, em um caso emblemático de violência contra uma transsexual, oriundo de uma pesquisa em Saúde Coletiva, a possível violação dos Princípios de Yogiakarta e de outras normas de Direitos Humanos. OBJETO: Trata-se de um caso de assassinato de uma transsexual na Cidade de Campinas (SP/Brasil), no ano de 2019, amplamente divulgado pela mídia local. Após a morte, a vítima teve seu coração extirpado e, no espaço daquele órgão, o agressor inseriu a imagem de uma santa. A morte ocorreu em uma região com altos índices de homicídios e baixo Índice de Desenvolvimento Humano Municipal. A vítima trabalhava de forma precarizada e tinha, anteriormente à sua morte, histórico de prostituição. O agressor é portador de transtorno mental grave e, antes da violência, procurou serviços de saúde mental da região e não foi adequadamente atendido. MÉTODO: No âmbito da Saúde Coletiva foi desenvolvida uma pesquisa caso-controle espacial, onde se estudaram todas as mortes por causas externas (CID-10, Capítulo XX) na Cidade de Campinas no ano de 2019. A coleta de dados foi realizada por meio de Autópsia Verbal e utilizou, como meios subsidiários de obtenção de dados, informações oriundas da mídia e do Poder Judiciário sobre os casos de interesse. No processo de coleta foram selecionados casos com elementos paradigmáticos-emblemáticos para aprofundamento, dentre estes o caso apresentado. As variáveis do caso estudado foram comparadas com os dados da pesquisa-mãe, na qual foram identificados, mediante sofisticada análise estatística, fatores de risco relevantes para todos os homicídios naquela cidade. HIPÓTESE INICIAL: Os fatores estudados na pesquisa caso-controle e as peculiaridades do caso destacado apontam para o descumprimento dos Princípios de Yogiakarta e outras normas de Direitos Humanos.  RESULTADOS PARCIAIS: Os Princípios de Yogiakarta que se referem aos direitos à igualdade e não-discriminação, à educação,  à segurança pessoal,  ao direito à vida, inclusive com um padrão adequado foram flagrantemente violados, contribuindo para a perpetração e agravamento da violência sofrida pela vítima. Subsidiariamente, ainda sob o aspecto da violação de Direitos Humanos, observou-se descumprimento aos “princípios de proteção de pessoas acometidas de transtorno mental” (ASSEMBLÉIA GERAL: ONU. N. A/46/49, de 17/12/1991).

Biografia do Autor

ANTONIO CARLOS BELLINI-JR, Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP

Professor e Advogado. Sócio do escritório Bellini Júnior e Vilhena Sociedade de Advogados, onde é o sócio responsável pela coordenação e supervisão das atividades contenciosas. Advogado atuante em demandas criminais, em especial em demandas criminais de caráter corporativo e sanitário. Pesquisador do epiGeo (Laboratório de Análise Espacial de Dados Epidemiológicos) do Departamento de Saúde Coletiva (DSC) da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Doutorando em Saúde Coletiva (Programa de Pós Graduação do DSC/FCM/UNICAMP - previsão de término no ano 2023) na área de concentração Epidemiologia, onde participa de pesquisas sobre Epidemiologia das Causas Externas, Mortes Violentas e Violência Urbana. Conselheiro Departamental Titular (assento discente) no DSC/FCM/UNICAMP. Pesquisador do GAPO CORONA (Grupo de Apoio ao Pós Óbito) da FCM/UNICAMP. Membro do LEIPSI (Laboratório de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos) da FCM/UNICAMP. Foi Coordenador Regional Adjunto para o Estado de São Paulo do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais - IBCCRIM. No mesmo instituto foi membro colaborador do Conselho Editorial do Boletim Mensal (na atividade de pesquisa jurisprudencial), bem como Coordenador Adjunto, em âmbito nacional, das Mesas de Debate. Professor licenciado de Direito Processual Penal e Direito Penal no Grupo UniEduK. Palestrante na área de especialidade em diversas entidades e faculdades. Atividades de Docência Parcial - PED na Disciplina Medicina Legal I na FCM/UNICAMP (2° semestre de 2020). Professor no Módulo de Direito Penal do curso de Pós graduação em Direito Sanitário do Instituto de Direito Sanitário (IDISA). Formado em Direito pela Universidade São Francisco (1996) e pós-graduado em Direito Processual Civil pela PUC Campinas (2003). Ex-Diretor Secretário Geral da OAB Campinas.

PEDRO HENRIQUE DE FARIA, Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP

Possui graduação em Direito - Faculdades de Campinas (2015). Atualmente é pesquisador da Universidade Estadual de Campinas. Tem experiência na área de Teoria do Direitos, Direito Penal e Sanitário, bem como Epidemiologia, com ênfase em Políticas Públicas de Psicoativos e sua relação com mortes violentas, atuando principalmente nos seguintes temas: Políticas de Drogas, Epidemiologia das Mortes Violentas e Saúde Coletiva. Membro do Laboratório de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (LEIPSI), do Laboratório de estudos epidemiológicos e de georreferenciamento (epiGeo), e do Grupo de Trabalho Violência e Saúde da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO). 

Publicado

06.01.2022