PANDEMIA E NECROPOLÍTICA NO BRASIL

Autores

  • Joice Graciele Nielsson
  • Maiquel Ângelo Dezordi Wermuth UNIJUI - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul

Palavras-chave:

Pandemia, biopolítica, necropolítica, desigualdade estrutural

Resumo

O artigo analisa os dispositivos de poder – de gerenciamento de vida e de morte – socialmente constituídos no Brasil e sua relação com a pandemia da Covid-19. A pergunta que orienta a pesquisa pode ser assim sintetizada: em que medida a pandemia da Covid-19 reforça, no contexto brasileiro atual, a lógica da exclusão e da produção de morte em massa (necropolítica) das camadas subalternizadas da população? Parte-se da hipótese inicial de que, quando confrontadas com um significante vazio, são nossas próprias estruturas sociais que definirão os efeitos da passagem do novo coronavírus pela nossa sociedade. São, também, os dispositivos já em curso em cada sociedade que determinarão os arranjos e rearranjos nas estruturas e relações de poder que serão ativadas nestes espaços para fazer frente à passagem do vírus, e sua eficiência, ou não, ao final destes acontecimentos. Os objetivos específicos do trabalho consistem em: a) analisar, a partir do marco teórico biopolítico, de que modo as respostas políticas constituídas diante da pandemia Covid-19 podem se constituir em espaços de gestão de novas formas de controle que perdurarão em nossas sociedades; b) avaliar especialmente o cenário brasileiro para investigar de que modo as especificidades características de nossas sociedades coloniais, extremamente desiguais, produzirão formas específicas de necropolíticas que gerarão a precarização e a morte de um grande número de pessoas. A pesquisa é perspectivada por meio da técnica da pesquisa bibliográfica e do método genealógico foucaultiano. Como resultados da pesquisa, aponta-se para o fato de que, na concepção do filósofo camaronês Achille Mbembe, que deu sustentação à presente investigação, o estado de exceção e a relação de inimizade tornam-se, na contemporaneidade, a base normativa do direito de matar. Transpondo essa constatação para a realidade brasileira em face da pandemia da Covid-19, não é difícil perceber a lógica factual da eleição da população pauperizada, que reside nas periferias das grandes cidades, como “alvos” prioritários das cesuras biopolíticas que implicam uma maior exposição à morte. Isso como decorrência de um racismo estrutural tributário do longo e violento período em que a escravidão e seu ethos de violência esteve vigente como sistema legítimo de ordenação social em solo brasileiro – o que ecoa até hoje no modo desigual com que os sujeitos são expostos às consequências da doença causada pelo novo coronavírus, a depender do estrato social ao qual pertencem.

Biografia do Autor

Maiquel Ângelo Dezordi Wermuth, UNIJUI - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul

Dr. em Direito. Professor-pesquisador e Coordenador do Programa de Pós Graduação em Direito - Mestrado e Doutorado em Direitos Humanos - da UNIJUI.

Publicado

06.01.2022