NARRATIVAS MIDIÁTICAS DE NUTRICIONISTAS DIANTE DA COVID-19 NO BRASIL
RECEITA DE ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL OU NEGLIGÊNCIA DA SEGURANÇA ALIMENTAR?
Palavras-chave:
Alimentação saudável, Covid-19, Segurança alimentar, YoutubeResumo
O presente trabalho parte de pesquisa realizada pela autora durante o mestrado, o qual se detém nos principais sentidos sobre alimentação saudável postos em circulação pelas obras midiáticas com maior popularidade na plataforma Youtube, no período correspondente ao início da pandemia de Covid-19 no Brasil. Diante de um cenário pandêmico, a exposição e determinação do que seriam práticas saudáveis em alimentação pautadas na adesão ao estilo de vida saudável, como uma escolha a ser feita individualmente, por profissionais da Nutrição e por mecanismos midiáticos de legitimação discursiva, configura motivo de preocupação em termos de saúde pública, ao ser capaz de enaltecer práticas que não contemplam as desigualdades sociais existentes, especialmente no que tange à insegurança alimentar e nutricional. Desse modo, considerando que os sujeitos tomam suas decisões conforme sua relação com os saberes adquiridos ao longo de sua construção, nosso objetivo foi o de identificar se dentre as publicações de nutricionistas sobre alimentação saudável, que se popularizaram na plataforma Youtube durante o início da pandemia de Covid-19 no Brasil, foram considerados os requisitos para um estado de Segurança Alimentar e Nutricional. Como procedimentos metodológicos, foi realizada uma pesquisa quanti-qualitativa iniciada pela busca do termo “alimentação saudável” com utilização das ferramentas disponíveis no Youtube, em que elencamos os dez vídeos com maior número de visualizações no período entre março e junho de 2020, este o mês em que foi publicado o primeiro documento governamental brasileiro contendo orientações sobre como lidar com a pandemia emergente. Após transcrição dos vídeos, tivemos como aporte teórico analítico uma associação da Semiologia dos Discursos Sociais (PINTO, 1994) aos procedimentos metodológicos apresentados por Verón (2004) e Araújo (2004), que permitiram evidenciar as marcas enunciativas presentes nos discursos e analisar a comunicação como uma arena de disputas. Todavia, para atender aos objetivos do presente trabalho, foram elencadas as únicas duas obras que contém nutricionistas compondo as narrativas, direta ou indiretamente. Como hipótese inicial, sugerimos que a adoção do adjetivo saudável como conceito carregue um sentido valorativo, por meio da determinação de condições específicas para definir o estatuto de saúde, que qualifica práticas divergentes como inadequadas e delimita formas sociais de lidar com a relação saúde-doença. Já dentre os achados, foi observado que ambas as construções narrativas trataram a alimentação saudável como uma prática a ser conduzida majoritariamente pelo teor nutricional dos alimentos, a partir da autorresponsabilização pela adesão de um estilo de vida saudável, relacionando-a à manutenção de peso corporal e/ou emagrecimento, antagonismo ao consumo de industrializados e associação a alimentos de custo elevado. Logo, especialmente no cenário vigente, a popularização midiática de tais discursos partindo de profissionais da Nutrição contraria totalmente realidade brasileira e, portanto, os princípios para a Segurança Alimentar e Nutricional, uma vez que o acesso à alimentação básica tem se tornado escasso para crescente número de sujeitos em situação de vulnerabilidade, conduzindo o país a retornar ao mapa da fome.