DESAFIOS AO NÍVEL DA SAÚDE MENTAL EM POPULAÇÕES DE REFUGIADOS, DESLOCADOS INTERNOS E REQUERENTES DE ASILO

Autores

  • Raquel Soares Rodrigues Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra

DOI:

https://doi.org/10.29327/1163602.7-14

Palavras-chave:

REFUGIADOS, DOENÇA MENTAL, PREVALÊNCIA, PERTURBAÇÃO DE STRESS PÓS-TRAUMÁTICO, INTERVENÇÕES PSICOSSOCIAIS, TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL

Resumo

Introdução: Refugiados, deslocados internos e requerentes de asilo partem de países onde existe guerra e violência organizada, enfrentam o perigo do deslocamento e sofrem dificuldades várias no processo de reassentamento. Esta exposição prolongada a conflito e adversidade impõe um risco acrescido de desenvolvimento de doença mental, cuja prevalência nestas populações tem sido reportada como substancialmente superior à da população em geral, sendo que não existe ainda evidência consensual sobre quais as intervenções de saúde mais adequadas no seu tratamento. Objectivo: O objectivo deste trabalho é fornecer uma revisão atualizada dos desafios presentes no panorama actual da saúde mental de populações de refugiados, deslocados internos e requerentes de asilo, compreender o contexto histórico, político e social que condicionou o presente enquadramento, analisar os factores determinantes da maior prevalência de doença mental nestas populações e rever as intervenções médicas, psicológicas e psicossociais actualmente utilizadas no seu tratamento. Métodos: A pesquisa foi realizada através das plataformas NCBI, PubMed e ScienceDirect, nas bases de dados MEDLINE, EMBASE, Web of Science, COCHRANE, SciELO, Index e ACAAP e foi restringida a revisões sistemáticas publicadas desde o pico migratório de 2015, analisando a prevalência de doença mental e as intervenções terapêuticas utilizadas junto de populações de refugiados, deslocados internos ou requerentes de asilo. Resultados: Foram encontradas taxas de doença mental substancialmente superiores às da população em geral, nomeadamente de perturbações depressivas, de ansiedade e stress pós-traumático, com prevalência de até mais de uma década após o deslocamento. Foram analisados vários factores condicionantes dessa prevalência, designadamente as experiências traumáticas pré-migração, as condições encontradas pós-migração e a adequação cultural dos métodos de diagnóstico e tratamento. Em relação a abordagens terapêuticas foi encontrada evidência a favor de psicoterapias com foco no trauma, abordagens do domínio psicossocial e formatos de psicoterapia curtos e não especializados com grande potencial de implementação em países em desenvolvimento. Conclusão: Apesar de existir uma base de evidência para a afirmação de que estas populações estão sob maior risco de desenvolvimento de doença mental e de existir eficácia relatada para determinadas psicoterapias, é necessária mais investigação que confira uma maior clareza em relação aos valores de prevalência destas perturbações e seus factores condicionadores, bem como em relação à eficácia de intervenções terapêuticas que sejam especificamente adequadas às necessidades particulares destas populações.

Publicado

31.12.2022