SENTIDOS DE UM PAÍS SEM CENSO

ENQUADRAMENTOS NA COBERTURA DA NÃO REALIZAÇÃO DA PESQUISA CENSITÁRIA DE 2020/2021 NO BRASIL

Authors

  • Ricardo Augusto Orlando Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP)

DOI:

https://doi.org/10.29327/1163602.7-593

Keywords:

Censo, Imprensa, O Estado de S. Paulo, Apagão de Dados, Enquadramento

Abstract

O atual governo brasileiro se coloca abertamente contra a imprensa, promove desinformação em áreas sensíveis como a saúde e processos eleitorais. Tem determinado sigilo acerca de dados que envolvem uso do dinheiro público e atividades de gestão no setor público, como também fragilizado procedimentos de transparência governamental. Um dos destaques desse momento de desinformação é o que alguns chamam de “apagão de dados” e/ou “apagão estatístico”, que envolve a não produção ou não disponibilização de informações necessárias para implementação de políticas públicas e acesso a direitos fundamentais. Um caso notório foi a dificuldade da imprensa em acessar números de mortes por covid-19: no início de junho de 2020, formou-se o Consórcio de Veículos de Imprensa (O Estado de S. Paulo, G1, O Globo, Extra, Folha de S.Paulo e UOL) para contornar o problema, consolidando informações a partir de material das secretarias estaduais de saúde. Outro exemplo: no final de 2021, um possível “ataque hacker” produziu “apagão” nos dados relativos à covid-19 no Ministério da Saúde, comprometendo por vários dias os sistemas de informação sobre imunizações, emissão de certificados de vacinação e boletins epidemiológicos diários da doença. Mais exemplos: alterações da Lei de Acesso à Informação (janeiro/2019) ampliaram as possibilidades de classificação de materiais como secretos, embate com o INPE por conta da divulgação de indicadores sobre desmatamento, restrição em informações do Censo Escolar e do Exame Nacional do Ensino Médio. Um dos pontos sensíveis deste “apagão” é a não realização do Censo 2020, com o adiamento para 2021 e, depois, novamente para 2022. Em meio ao debate sobre a necessidade da pesquisa censitária e os problemas e prejuízos decorrentes da sua não realização, muito material foi publicado na imprensa. Este trabalho assume o pressuposto de que a informação é uma parte importante da implementação de políticas e da defesa dos direitos humanos. E que a imprensa relaciona pouco dados/informações públicas com direitos humanos e/ou fundamentais (hipótese). Do ponto de vista da produção discursiva da imprensa, de que forma essa falta de informações tem sido construída? Há aproximações com o debate sobre direitos humanos? O estudo aqui apresentado investiga o acontecimento jornalístico do cancelamento/adiamento do Censo, procurando verificar os sentidos estabelecidos na versão impressa do jornal O Estado de S.Paulo, disponível no acervo digital (https://acervo.estadao.com.br/). Busca-se evidenciar a racionalidade mobilizada para discuti-lo nos níveis dos problemas, soluções, responsáveis, causas e juízos de valor associados, seguindo preceitos das teorias do enquadramento (framing). Considera-se que enquadramentos colocam em jogo seleções, saliências, apresentação e interpretação que impregnam a linguagem, funcionando como moldura. Para o estudo, adota procedimentos de análise de texto e discurso. As publicações, selecionadas de forma não exaustiva, indicam o debate concentrado em aspectos de gestão e razões de estado, problemas na esfera do administrativo, embora ocorram também menções aos efeitos práticos sobre a sociedade. No mesmo caldo de sentidos, destacam-se os âmbitos das indefinições, das incertezas e dos riscos. No geral, aspectos relativos à dimensão dos direitos humanos e/ou fundamentais ficam pouco salientes nas publicações.

Author Biography

Ricardo Augusto Orlando, Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP)

Doutor em Ciências da Comunicação, professor do Departamento de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto.

Published

2022-12-31