CANÇÕES MILITARES COMO INSTRUMENTO EDUCACIONAL DA NECROPOLÍTICA NA POLÍCIA BRASILEIRA
Keywords:
NECROPOLÍTICA, MILITARIZAÇÃO POLICIAL, FORMAÇÃO POLICIAL, VIOLÊNCIA INSTITUCIONAL, CANÇÕES MILITARESAbstract
A pesquisa investiga como músicas entoadas nas formações policiais contribuem para a legitimação da violência institucional no Brasil. O objeto central do estudo é a análise crítica das canções militares utilizadas durante o treinamento das forças de segurança como dispositivos pedagógicos que reproduzem práticas necropolíticas, ou seja, estratégias estatais de controle e eliminação seletiva de populações marginalizadas. A relevância temática justifica-se pela urgência de compreender as estruturas simbólicas que moldam o ethos belicista das forças policiais brasileiras, em especial diante do crescimento da letalidade policial e da seletividade racial nas abordagens, que afetam de maneira desproporcional jovens negros e pobres. Sob a ótica da necropolítica de Achille Mbembe, o estudo se debruça sobre a instrumentalização da morte e da exclusão social como tecnologias de poder aplicadas sistematicamente pelo Estado brasileiro.O objetivo principal do trabalho é demonstrar como as canções militares, longe de serem apenas mecanismos motivacionais, atuam como ferramentas de doutrinação e formação ideológica, internalizando discursos que naturalizam o uso da força letal e constroem a imagem do inimigo interno. Os objetivos específicos incluem: analisar o conteúdo simbólico das letras, verificar seu papel na construção da identidade policial e relacionar essas práticas ao racismo institucional e à lógica de guerra urbana. A metodologia adotada é dedutiva, com abordagem descritiva e exploratória, fundamentada em revisão bibliográfica interdisciplinar e análise textual crítica de canções entoadas em rituais de formação militar. As hipóteses iniciais assumem que tais canções não apenas refletem, mas reforçam práticas necropolíticas, reproduzindo uma visão dicotômica entre “ordem e caos” e legitimando a exclusão violenta de corpos considerados descartáveis. Os resultados parciais apontam que essas canções têm forte conteúdo simbólico e ideológico, exaltando o combate, a obediência irrestrita, o extermínio e a militarização da vida cotidiana nas comunidades periféricas. Destaca-se, por exemplo, a letra do BOPE que explicita a missão de “matar nas comunidades”, evidenciando a naturalização da violência como missão institucional. Tais elementos reforçam um imaginário de guerra contra a pobreza e a criminalização da negritude, conformando uma pedagogia da morte institucionalizada. Conclui-se que as canções militares funcionam como dispositivos de socialização autoritária, reproduzindo valores que impedem a construção de uma polícia cidadã. Nesse contexto, o artigo defende a necessidade de reestruturação urgente dos currículos de formação policial, propondo um modelo baseado nos direitos humanos, na mediação de conflitos e na desmilitarização simbólica das forças de segurança.