DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL PARA QUEM?

O BEM VIVER COMO PARADIGMA EPISTEMOLÓGICO AOS ODS

Autores

  • Rosa Maria Zaia Borges Universidade Federal de Uberlândia/MG

Palavras-chave:

AGENDA 2030, OBJETIVOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL, BEM VIVER

Resumo

O presente trabalho tem por objeto a problematização dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) como solução colonial para a crise ecológica, para a pobreza, para a promoção da paz e da prosperidade. Em sua definição clássica, apresentada pelo Relatório Bruntland (1987), o desenvolvimento deve atender às necessidades do presente sem comprometer as gerações futuras. A adoção da Agenda 2030 e dos ODS aprofunda este paradigma ao reafirmar a promoção de um modelo global de prosperidade inclusiva e ecológica que, apesar de aparente caráter progressista, não questiona os fundamentos de capitalismo global, insistindo no crescimento econômico como solução universal para problemas sociais e ambientais, descartando culturas, experiências e realidades históricas dos povos. Dados como os da OXFAM (2025) confirmam o diagnóstico afirmando que na próxima década o mundo terá pelo menos 5 trilionários, enquanto o número de pessoas vivendo na pobreza pouco mudou desde 1990. Segundo relatório da própria ONU/PNUMA (2024), o aquecimento global pode atingir cerca de 3,2°C até o final do século, sendo 10 países os responsáveis por 68% das emissões de gases de efeito estufa. Diante disso, a pesquisa tem como objetivo apresentar alternativa epistemológica e civilizatória – o “Bem Viver” (Buen Vivir – Sumak Kawsay), originado das cosmovisões indígenas andinas – centrado na relação harmônica entre seres humanos e natureza, na vida e na convivência comunitária (ACOSTA, 2012 e 2016) e abrir possibilidades outras de superação do modelo “clássico”, ao demonstrar que a ideia de desenvolvimento sustentável é uma contradição em si mesma e serve como instrumento de perpetuação da colonialidade, na medida que se pretende universal, permanecendo extrativista da vida e invisibilizando outras cosmologias que partem de uma concepção de construção social coletiva e não produtivista. Como hipótese, adotamos a premissa de que os ODS e a Agenda 2030 consolidam o paradigma capitalista ao impor metas quantitativas que ignoram as assimetrias históricas entre o Norte e o Sul globais, na mesma medida em que não propõe alternativas ao extrativismo tampouco rompe com o modelo desenvolvimentista, responsável originariamente pela degradação ambiental e à desigualdade social. A pesquisa justifica-se na medida em que propõe abordagem crítica ao desenvolvimento sustentável e aos ODS a partir do “Bem Viver”, sugerindo não apenas a necessidade de repensar os fundamentos orientadores das respostas globais às crises socioambientais, mas propondo alternativas à adoção de políticas internacionais, diplomáticas e governamentais fora dos limites do sistema moderno-capitalista, convidando à descolonização do pensamento e da prática política. A metodologia é a bibliográfica com aprofundamento nas teorias do “Bem Viver” e na análise documental a partir da análise de discurso, estabelecendo categorias e marcadores para problematizar os ODS, buscando denunciar e evidenciar as assimetrias entre o discurso universalista pretensamente igualitário e as efetivas propostas de transformação e de superação das assimetrias entre o Sul e o Norte globais. Como resultados parciais, podemos afirmar que tanto os fundamentos quanto as propostas de ações globais da Agenda 2030 e dos ODS permanecem ancorados em uma racionalidade moderna, antropocêntrica e produtivista e, portanto, não impulsionam mudanças globais efetivas.

Publicado

06.10.2025

Edição

Seção

Simpósio P06 - DIREITOS HUMANOS UNIVERSAIS? PERSPECTIVAS CRÍTICAS E DECOLONIAIS