O "IDH NEGRO" DE NITERÓI

UMA ANÁLISE CRÍTICA DO RECORTE RACIAL NO MAPA DA DESIGUALDADE 2023

Authors

  • Ingrid Oliveira IPPUR-UFRJ

Keywords:

IDH, DESIGUALDADE RACIAL, RACISMO ESTRUTURAL, NITERÓI, POLÍTICAS PÚBLICAS

Abstract

O presente trabalho propõe analisar criticamente o recorte racial do desenvolvimento humano em Niterói, município que ostenta o maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do estado do Rio de Janeiro e o sétimo maior do Brasil. Apesar desse reconhecimento, evidências recentes sugerem que o indicador médio, frequentemente destacado como modelo de qualidade de vida e progresso socioeconômico, mascara desigualdades raciais significativas no município. Tomando como ponto de partida os dados apresentados no Mapa da Desigualdade 2023, divulgado pela Casa Fluminense e elaborados originalmente pela Fundação João Pinheiro, em parceria com o IPEA e o PNUD (disponíveis no Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil), este artigo busca investigar e explicitar as discrepâncias ocultas nos indicadores sociais quando analisados sob a perspectiva racial. A relevância do tema decorre da necessidade urgente de expor e combater o racismo estrutural e institucionalizado, que persiste mesmo em contextos urbanos aparentemente prósperos, como Niterói. Embora reconhecida por seus bons índices gerais de saúde, educação e renda, a cidade apresenta dados que revelam uma profunda desigualdade racial: a população negra vivencia condições significativamente inferiores em todos esses aspectos, configurando um cenário de exclusão que contradiz o alto IDH amplamente divulgado. Este estudo tem como objetivos específicos: (1) identificar e analisar as principais discrepâncias raciais nos indicadores de renda, educação e expectativa de vida apresentados pela Casa Fluminense; (2) discutir criticamente como o uso de médias gerais em índices como o IDH contribui para a invisibilização das condições reais de vida da população negra; e (3) propor a relevância e viabilidade de uma análise racialmente desagregada dos indicadores oficiais como forma de subsidiar políticas públicas mais inclusivas e eficazes. Metodologicamente, adotará uma abordagem qualitativa, baseada em análise documental, centrada especificamente no relatório “Mapa da Desigualdade 2023” da Casa Fluminense. Serão realizadas comparações críticas entre indicadores desagregados por raça (populações negras e brancas), destacando especialmente os dados sobre renda média, expectativa de vida e educação. Esses dados serão interpretados à luz da literatura especializada sobre racismo estrutural e desigualdade racial no contexto brasileiro. A hipótese inicial deste artigo é que, ao utilizar uma perspectiva racialmente crítica, é possível demonstrar claramente que o elevado IDH de Niterói não reflete a realidade da população negra, que permanece estruturalmente excluída dos benefícios econômicos, sociais e culturais que definem a imagem pública da cidade. Assim, embora o IDH médio sugira igualdade e desenvolvimento homogêneo, ele oculta uma realidade paralela de pobreza, exclusão educacional e precariedade de condições de saúde vivenciadas pela população negra. Ao final, o artigo buscará reforçar a necessidade urgente de políticas públicas municipais que levem em consideração o recorte racial explícito, visando à construção de uma cidade efetivamente inclusiva, justa e antirracista.

Published

2025-10-06

Issue

Section

Simpósio P11 - DIREITO, RAÇA E INSTITUIÇÕES BRASILEIRAS