O TRABALHO DE CUIDADO EM CONTEXTO HOSPITALAR

A RESPONSABILIZAÇÃO FEMININA NA INTERNAÇÃO DE FAMILIARES

Authors

  • Poliana Arruda UNESP

Keywords:

CUIDADO; GÊNERO; HOSPITAL; SOBRECARREGA; MULHERES; ADOECIMENTO.

Abstract

Este trabalho tem como objetivo analisar, a partir de uma revisão bibliográfica, o papel das mulheres no cuidado de familiares internados em instituições hospitalares, com foco nas dinâmicas de responsabilização, sobrecarga e adoecimento que atravessam essa experiência, especialmente em contextos de hospital público como o Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp. A pesquisa se insere no campo dos estudos de gênero e do trabalho do cuidado, buscando compreender como as desigualdades estruturais moldam a divisão sexual do trabalho e a naturalização da figura feminina como principal cuidadora. A justificativa da pesquisa parte da invisibilização social e institucional do cuidado informal prestado por mulheres no ambiente hospitalar. O tema é relevante tanto pelo impacto direto na saúde física e emocional das cuidadoras quanto pela omissão do Estado frente à sobrecarga que elas enfrentam. Profissionais da saúde que atuam no HC da Unicamp observam, em seu cotidiano de trabalho, que a esmagadora maioria dos acompanhantes e visitantes de pacientes internados são mulheres — mães, esposas, irmãs ou filhas —, o que confirma empiricamente a prevalência do cuidado feminino nesses contextos. A metodologia adotada consiste em uma revisão bibliográfica de caráter qualitativo, com análise crítica de obras que tratam das relações de gênero, cuidado e saúde. O referencial teórico baseia-se nas contribuições de Hirata (2002, 2016), que conceitua o cuidado como parte de uma divisão sexual do trabalho marcada por desigualdades; Sarti (2004), que evidencia o papel das mulheres na sustentação da vida familiar e Badinter (2011) também é mobilizada para discutir a idealização do cuidado materno e a culpabilização feminina.A hipótese inicial sustenta que o cuidado prestado por mulheres durante a internação hospitalar de familiares contribui para sua sobrecarga física e emocional, sendo intensificado pela ausência de rede de apoios institucional e familiar e pela expectativa social de dedicação incondicional. Os resultados parciais da pesquisa apontam para a repetição de jornadas extenuantes, sofrimento biopsicossocial e sintomas de adoecimento como estresse, ansiedade e esgotamento. A recente promulgação da Política Nacional de Cuidados, por meio da Lei nº 15.069/2024, representa um avanço significativo ao reconhecer o cuidado como um direito universal e um dever compartilhado entre Estado, famílias, setor privado e sociedade civil. A PNC visa promover a corresponsabilização social entre homens e mulheres pela provisão de cuidados, reconhecendo, reduzindo e redistribuindo o trabalho não remunerado de cuidado, realizado principalmente pelas mulheres. A implementação do Plano Nacional de Cuidados, previsto pela lei, busca estruturar ações intersetoriais que garantam o acesso ao cuidado de qualidade para quem cuida e para quem é cuidado, além de promover o trabalho decente para os trabalhadores remunerados do cuidado e enfrentar as múltiplas desigualdades estruturais no acesso ao direito ao cuidado. Conclui-se que o cuidado hospitalar realizado por mulheres é uma expressão concreta das desigualdades de gênero nas estruturas sociais e institucionais. A constatação empírica feita por profissionais de saúde reforça a urgência de políticas públicas que reconheçam o cuidado como trabalho e ofereçam suporte efetivo às mulheres que assumem esse papel de maneira contínua e muitas vezes solitária.

Published

2025-10-03

Issue

Section

Simpósio On152 - DIREITOS ASSEGURADOS NA SAÚDE E ASSISTÊNCIA SOCIAL