DINHEIRO, SAÚDE MENTAL E DIREITOS HUMANOS

O QUE OS PROGRAMAS FINANCEIROS (AINDA) NÃO FAZEM PELAS MULHERES

Autores

  • Karoline Gilo Universidade de Brasília

Palavras-chave:

dinheiro, programas financeiros, mulheres, saúde mental, justiça social

Resumo

A desigualdade de gênero no acesso a recursos financeiros e a sobrecarga de responsabilidades econômicas agravam os desafios enfrentados por mulheres, especialmente em contextos de trabalho precarizado e dupla jornada. Embora programas de educação financeira busquem promover inclusão, essas intervenções raramente consideram as barreiras específicas que afetam a saúde mental e a autonomia econômica das mulheres – como violência financeira, disparidade salarial e trabalho não remunerado. Esta revisão sistemática analisou 109 artigos (2005-2024) sobre intervenções financeiras, selecionados em seis bases de dados. Embora o estudo original abranja diferentes grupos, este resumo destaca os achados relacionados às mulheres. Deste total, 12 estudos focavam exclusivamente em mulheres, enquanto outros 23 incluíam análises por gênero. Os resultados mostraram: 1) Lacunas de gênero: apenas 11% das intervenções adaptavam conteúdo a realidades femininas (ex.: planejamento financeiro para mães solo), enquanto programas universais falharam em reduzir o estresse financeiro de mulheres, pois ignoravam fatores como divisão desigual de gastos domésticos e acesso limitado a crédito; 2) Saúde mental: mulheres em intervenções combinadas (educação financeira + apoio psicológico) relataram redução de 30% em sintomas de ansiedade, mas faltam estratégias para mitigar a "culpa financeira" em mulheres pobres, que associam dívidas a falhas pessoais; 3) Direitos humanos: nenhum programa vinculava educação financeira a marcos legais (ex.: Convenção CEDAW ou direitos trabalhistas), ao passo que intervenções em comunidades indígenas e imigrantes mostraram maior eficácia quando abordavam normas de gênero locais. Os achados revelam uma negligência estrutural nas intervenções voltadas às mulheres, especialmente quanto à: 1) interseccionalidade, uma vez que a maioria ignora marcadores como raça, classe e maternidade; 2) realidade laboral, ao desconsiderar como a informalidade e a precarização limitam a aplicação de conhecimentos financeiros; e 3) saúde mental, já que poucas abordam a relação entre dívidas e sofrimento psíquico – ainda que mulheres estejam entre as mais afetadas. Propõe-se a criação de diretrizes de educação financeira com perspectiva de gênero, integradas a políticas de emprego e enfrentamento da violência econômica; além da capacitação de profissionais para articular finanças e saúde mental. Este estudo, parte de uma revisão mais ampla, evidencia como a invisibilidade de gênero nos programas financeiros aprofunda desigualdades. Os achados reforçam a urgência de políticas intersetoriais que conectem educação financeira, saúde mental e direitos trabalhistas – agenda diretamente alinhada aos objetivos deste evento.

Publicado

03.10.2025

Edição

Seção

Simpósio On131 - TRABALHO FEMININO E DIREITOS HUMANOS