DA FRONTEIRA PARA AS CIDADES DOS FRIGORÍFICOS
IMIGRANTES NO RECRUTAMENTO HUMANITÁRIO
Keywords:
FRONTEIRAS; HUMANITARISMO; MIGRAÇÕES SUL-SUL; INSERÇÃO LABORAL; FRIGORÍFICOSAbstract
O setor de frigoríficos constitui a principal forma de inserção laboral entre migrantes internacionais no mercado de trabalho formal brasileiro (CAVALCANTI; OLIVEIRA; SILVA, 2021). Com 106 vínculos empregatícios segundo a Relação Anual de Informações Sociais de 2006, essa cifra salta para 53.347 registros em 2024¹. Para esse ano, 67% dos vínculos ativos nesse segmento eram de nacionais da Venezuela e 23% do Haiti. A centralidade de ambas as nacionalidades na composição desse nicho de trabalho migrante expressa fatores associados à origem, ao destino e às redes que impulsionam a inserção laboral especializada (WALDINGER, 2005; BAENINGER, 2016 e 2018). Na origem, evidencia-se a crise humanitária característica da migração transnacional refugiada (BAENINGER, 2016). No destino, o acesso à documentação e a conotação dirigida dessa migração (BAENINGER, 2018) expressa o interesse do Estado, de empresário, e de atores estatais e paraestatais (AMAR, 2020) na gestão desses fluxos. Da articulação desses agentes nasce o recrutamento humanitário: uma forma de mobilização para o trabalho que não assume um formato estritamente empresarial, “mas se dá dentro de um quadro de ‘ação social’” (BICUDO, 2021, p.65). O objetivo deste trabalho é apresentar o recrutamento humanitário como dimensão central para a formação do nicho de trabalho migrante nas cidades com frigoríficos do Brasil. A constituição desses espaços das migrações Sul-Sul expressa não apenas as dinâmicas específicas de arregimentação para o trabalho nesse segmento, como também vislumbra uma nova teia de conexões entre espaços selecionados (SASSEN, 1998) pelo capital transnacional e as fronteiras terrestre brasileiras, em especial a amazônica. Além de revisão bibliográfica e uso de registros administrativos relativos aos vínculos empregatícios no mercado de trabalho formal do governo brasileiro (RAIS), o entendimento sobre a formação do nicho de trabalho migrante nos frigoríficos conta com pesquisa de campo do Observatório das Migrações em São Paulo, no ano de 2022.