XICA MANICONGO
INTERSECCIONALIDADE, RESISTÊNCIA E DESAFIOS À OPRESSÃO COLONIAL NO BRASIL DO SÉCULO XVI
Keywords:
XICA MANICONGO, INTERSECCIONALIDADE, BRASIL COLONIALAbstract
A história de Xica Manicongo, uma figura negra e gender-nonconforming no Brasil colonial, permanece marginalizada nos estudos acadêmicos, especialmente sob uma perspectiva interseccional. A escassez de registros detalhados e a predominância de narrativas coloniais heteronormativas dificultam a compreensão de sua luta contra a opressão de gênero e raça. Este artigo busca preencher essa lacuna, questionando: Como a trajetória de Xica Manicongo exemplifica uma resistência interseccional às estruturas coloniais patriarcais e racistas, e qual seu legado para os debates contemporâneos sobre identidade e justiça social? Este artigo trabalha com a hipótese de que a resistência de Xica Manicongo, expressada através de sua afirmação identitária em um contexto de escravidão e controle colonial, constitui uma forma pioneira de luta interseccional. Sua experiência desafia não apenas as normas de gênero impostas pela Igreja Católica, mas também revela como a racialização e a violência colonial se entrelaçavam na repressão a corpos negros e não conformes. De um modo geral, objetiva-se analisar a vida de Xica Manicongo no Brasil colonial, destacando suas estratégias de resistência à opressão interseccional de gênero e raça, e refletir sobre seu legado histórico para os movimentos sociais contemporâneos. Além disso, especificamente, objetiva-se: i) reconstruir o contexto histórico do Brasil colonial no século XVI, com ênfase nas dinâmicas de escravidão, controle de gênero e atuação da Inquisição, investigando a interseccionalidade entre raça, gênero e classe na repressão sofrida por Xica Manicongo; ii) mapear as formas de resistência empregadas por Xica, desde sua autoexpressão identitária até possíveis redes de apoio entre pessoas escravizadas e discutir os silêncios historiográficos e os desafios metodológicos de estudar figuras marginalizadas em arquivos coloniais; iii) conectar sua trajetória às lutas contemporâneas por direitos LGBTQIA+ e antirracismo no Brasil, destacando continuidades históricas. No que diz respeito à metodologia, decidiu-se por uma abordagem qualitativa, combinando análise crítica de fontes primárias (como registros eclesiásticos e processos inquisitoriais) e revisão historiográfica. Em relação às fontes, faz-se referência à Teoria interseccional (Crenshaw, 1989) e aos conceitos de transnegritude (referências a autores como Viviane Vergueiro e Jaqueline Gomes de Jesus) para interpretar sua experiência, e estabelece-se diálogo com estudos pós-coloniais (Frantz Fanon, Lélia Gonzalez) e teorias queer decoloniais (María Lugones). Pretende-se, então, demonstrar como a opressão interseccional estruturou práticas coloniais de controle social; revelar estratégias de resistência não convencionais, como a afirmação identitária em contextos de extrema violência, e; incentivar novas pesquisas sobre personagens históricos marginalizados, utilizando abordagens transdisciplinares.Xica Manicongo é reconhecida como uma das primeiras pessoas transgênero documentadas no Brasil, executada pela Inquisição por "afronta à moral cristã". Sua história oferece um marco para discutir a violência colonial contra corpos negros e dissidentes de gênero, além de ressaltar a agência de indivíduos subalternizados. O artigo contribui para descolonizar narrativas históricas e ampliar debates sobre memória, reparação e justiça social.