TRABALHO ESCRAVO CONTEMPORÂNEO E GÊNERO
UMA ANÁLISE DA SUPEREXPLORAÇÃO DE MULHERES NORDESTINAS EM TRABALHOS DOMÉSTICOS
Keywords:
trabalho escravo contemporâneo, perspectiva de gênero, mulheres migrantes, mulheres nordestinasAbstract
Dados do canal “Disque 100” divulgam, desde sua criação em 2011, mais de 21,6 mil denúncias de trabalho análogo à escravidão. Em 2024, houve um recorde de 3.959 denúncias, um aumento de 15,4% em relação ao ano anterior. Ainda assim, o tema segue à margem do debate público, em parte por atingir populações historicamente vulnerabilizadas. No contexto urbano, muitas denúncias estão ligadas ao trabalho doméstico, marcado por jornadas exaustivas, salários baixos, ausência de direitos e restrições à liberdade. É comum que trabalhadoras morem no local de trabalho, o que intensifica a subordinação. O trabalho doméstico tende a ser desempenhado por mulheres, como uma atribuição natural ao feminino que teria “em sua essência” um cuidado proveniente de amor, sem motivos econômicos. Até a abolição da escravidão no Brasil, o trabalho doméstico era realizado essencialmente por mulheres de origem africana traficadas e colocadas para trabalhar nas casas como “mucamas”, cozinheiras e amas de leite. Persistiu o desamparo social após a abolição, resultando na informalidade e precarização do trabalho. Ou seja, o trabalho escravo contemporâneo e urbano atinge, de forma predominante, mulheres, como resultado de uma herança escravocrata ainda não superada e de uma estrutura social machista. Esse cenário, em um país de dimensões continentais como o Brasil, ganha características específicas também em razão da xenofobia contra nordestinos nas regiões Sudeste e Sul. A partir de 1930, com o avanço da integração regional, intensificou-se a migração do Nordeste para o Sudeste. No entanto, os trabalhadores nordestinos encontraram um mercado consolidado, tendo que competir com quem já estava estabelecido. Isso resultou na sua concentração em ocupações de baixa qualificação e remuneração. No caso das mulheres nordestinas, observa-se uma massiva alocação no trabalho doméstico. A distância de casa e, muitas vezes, da própria família, facilita a ocorrência de situações de trabalho análogo à escravidão. A ideia do “salvador branco” se estende à figura do patrão paulista, e o que muitas famílias chamam de “dar uma oportunidade a uma mulher migrante” funciona, na prática, como uma justificativa para uma exploração socialmente tolerada. Assim, o trabalho escravo doméstico no Brasil contemporâneo tem cor, gênero e sotaque. Trata-se de fenômeno interseccional que exige uma compreensão multidimensional, a fim de que se possam identificar caminhos concretos para sua superação. Diante deste cenário, o presente estudo tem como objetivo compreender como o trabalho escravo contemporâneo afeta mulheres nordestinas no Brasil, a partir da superexploração dessas mulheres em atividades domésticas após a migração, especialmente na região Sudeste. Busca-se compreender de que forma o trabalho doméstico, atravessado por marcadores de gênero, raça e origem regional, contribui para a manutenção de um sistema de exploração invisibilizado e naturalizado. Para tanto, far-se-á pesquisa pelo método indutivo, com base em revisão bibliográfica e análise crítica. A proposta parte de um estudo específico da situação das mulheres nordestinas para compreender como o trabalho doméstico atravessa corpos femininos. Parte-se da premissa de que o trabalho de cuidado, especialmente aquele exercido por mulheres migrantes, permanece desvalorizado e invisibilizado, mesmo quando constitui a base do funcionamento dos lares urbanos.