HISTÓRICO DE VIOLAÇÕES DE DIREITOS HUMANOS DAS COMUNIDADES FAISCADORAS E PESCADORAS TRADICIONAIS ATINGIDAS PELO DESASTRE-CRIME DE FUNDÃO DO TERRITÓRIO DE RIO DOCE, SANTA CRUZ DO ESCALVADO E CHOPOTÓ (DISTRITO DE PONTE NOVA)

Authors

  • Aline Pacheco Silva Faculdade Dinâmica do Vale do Piranga
  • Marco Aurélio Souza Lara UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO - UFOP

Keywords:

Violações de direitos humanos, Comunidades tradicionais, Faiscadores, Desastre socioambiental, Reparação

Abstract

O presente trabalho tem como objeto analisar o histórico de violações de direitos humanos vivenciado pelas comunidades faiscadoras e pescadoras tradicionais dos territórios de Rio Doce, Santa Cruz do Escalvado e distrito de Chopotó, no estado de Minas Gerais, atingidos pelo rompimento da barragem de Fundão, ocorrido em 2015. Estas comunidades, historicamente vinculadas às águas dos rios Doce e Carmo como fonte de trabalho, sustento, cultura e identidade, tiveram seus modos de vida profundamente modificados. Desde o início do processo de reparação, as violações se manifestaram de diversas formas, tais como: a negativa de acesso ao Auxílio Financeiro Emergencial (AFE) a centenas de famílias, mesmo após terem sido reconhecidas como atingidas em recomendações e deliberações oficiais; a interrupção abrupta e sem consulta do pagamento do AFE em 2021, gerando insegurança alimentar e social; a imposição de termos de quitação que ameaçam os direitos das comunidades tradicionais, sem a devida realização da consulta livre, prévia e informada, contrariando a Convenção nº 169 da OIT. Soma-se a isso a constante dificuldade de reconhecimento das atividades econômicas das mulheres, como a faiscação, a pesca de subsistência e o trabalho informal, historicamente invisibilizados pelos programas de reparação. O trabalho tem como objetivo documentar, analisar e refletir sobre as práticas institucionais que, ao longo dos anos, perpetuaram a negação de direitos a essas comunidades. A metodologia adotada é qualitativa, baseada na análise documental de deliberações judiciais, acordos, atos administrativos, relatórios técnicos da Assessoria Técnica Independente e atas de reuniões realizadas com os atingidos. A hipótese que orienta o estudo é a de que o rompimento da barragem não representa um evento isolado, mas sim um marco que aprofunda processos históricos de negação de direitos, racismo ambiental e marginalização econômica, social e cultural dessas populações. Mesmo após quase uma década do desastre, as comunidades seguem enfrentando barreiras para o reconhecimento de seus direitos, incluindo exclusões arbitrárias em listas de elegibilidade, ausência de consulta prévia, insegurança jurídica sobre os programas indenizatórios e impactos contínuos no acesso à água, à renda e à segurança alimentar. A realidade revela que, embora haja avanços no reconhecimento formal das comunidades como povos e comunidades tradicionais, estes não têm se refletido de forma efetiva na reparação dos danos sofridos. O atual Acordo de Repactuação, homologado em 2024, não corrigiu plenamente as omissões e exclusões apresentadas, mantendo estruturas que perpetuam a assimetria de poder, o apagamento dos modos de vida e a insegurança quanto ao futuro das comunidades. Este trabalho visa contribuir para o fortalecimento da luta dos povos tradicionais atingidos, buscando construir reflexões que apoiem a efetivação de uma reparação justa, integral e culturalmente adequada.

Author Biographies

Aline Pacheco Silva, Faculdade Dinâmica do Vale do Piranga

Mestre em Psicologia pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais. Possui graduação em PSICOLOGIA pela mesma universidade. Especialista em Gestão de Políticas Públicas em Gênero e Raça pela Universidade Federal de Viçosa.Atualmente é Coordenadora de Campo da Assessoria Técnica Independente dos atingidos e atingidas - Rosa Fortini, no município de Rio Doce. Professora das faculdades UNIPAC/PN e Dinâmica/Ponte Nova.Trabalhou com pesquisas no Sistema Prisional desde 2006, desenvolvendo atividades que investigam a relação entre trabalho e criminalidade, procurando compreender e analisar o sentido do trabalho para os sujeitos que estão em privação de liberdade e sua utilização como recurso ressocializador. Pesquisou, também, as relações de trabalho nos diversos ambientes de trabalho (trabalho e prostituição, o trabalho dos agentes penitenciários e socioeducativos, servidores tecnicos-administrativos de universidades federais, o trabalho do psicólogo no sistema prisional). Colaboradora da Comissão de Orientação em Psicologia das Emergências e Desastres do CRP/MG.Suas primeiras atuações profissionais foram no Centro de Referência de Assistência Social em Rio Doce e Amparo do Serra (CRAS) e no Centro de Referencia Especializado de Assistência Social de Ponte Nova -MG (CREAS), onde atuou como técnica responsável pelas Medidas Socioeducativas em Meio Aberto (PSC e LA), realizando pesquisas sobre a temática. Professora da disciplina Psicologia aplicada à organizações no CEFET-MG de 2013 a 2015. Professora de diversas disciplinas nos cursos do PRONATEC; do curso de pós-graduação em Terapia de Família da UNESAV. Membro do Instituto DH: Promoção, Pesquisa e Intervenção em Direitos Humanos e Cidadania desde 2009 e de 2015 a 2017, atuou como psicologa no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos de Minas Gerais. Trabalhou como psicóloga que fazia parte da assessoria técnica dos atingidos e atingidas pelo rompimento da Barragem de Fundão, no município de Barra Longa - MG, pela Associação Estadual de Defesa Ambiental e Social (AEDAS) e coordenação geral do Programa de Proteção à Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte de Minas Gerais de 2021 a 2024.

Marco Aurélio Souza Lara, UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO - UFOP

Mestre em Direito no programa Novos Direitos, Novos Sujeitos, da Universidade Federal de Ouro Preto - UFOP (2022). Mestrando em Proteção aos Direitos Fundamentais pela Universidade de Itaúna (trancado). Pós-graduado em Direito Processual Penal pela Rede Damásio Educacional (2018). Bacharel em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (2015). Foi pesquisador do Grupo de Estudos e Pesquisas Socioambientais - GEPSA/UFOP coordenado pelas Profª Drª Tatiana Ribeiro de Souza e Profª Drª Karine Gonçalves Carneiro. (2020-2022). Foi monitor do Grupo de Estudos Casa Verde - Criminologia e Execução Penal - da FDUFMG (2015). Trabalhou como estagiário bolsista no Programa de Atenção Integral ao Paciente Judiciário - PAI-PJ (2013) e na Divisão de Assistência Judiciária -DAJ UFMG (2015). Foi extensionista voluntário no Projeto Justiça Restaurativa: paz social, prevenção à violência e promoção de direitos da juventude (2016). Além disso, integrou o Grupo de Estudos em Justiça Restaurativa da Faculdade de Direito da UFMG (2016). Cursou a disciplina Teoria do Crime e Intervenção Mínima do Curso de Mestrado em Direito Público da PUC-Minas (2017). Atualmente realiza pesquisas relacionado ao Governo dos Riscos, Sustentabilidade Global e Proteção dos Direitos Fundamentais.

Published

2025-10-03

Issue

Section

Simpósio On94 - DIREITOS HUM., JUSTIÇA SOCIOAMBIENTAL E RESISTÊNCIAS COLETIVAS