O LETRAMENTO MATEMÁTICO NA AMAZÔNIA SOB A PERSPECTIVA DA JUSTIÇA CURRICULAR
REFLEXÕES SOBRE NOVOS SIGNIFICADOS
Keywords:
LETRAMENTO MATEMÁTICO, JUSTIÇA CURRICULAR, AMAZÔNIA, DEMOCRACIAAbstract
O Brasil abriga a maior parte da Amazônia, a maior floresta tropical do mundo, que precisa ser preservada para garantir nossa própria sobrevivência neste planeta. Essa preservação exige uma troca de saberes com as comunidades tradicionais que vivem na/da floresta. Em Belém, capital do estado do Pará, algumas dessas comunidades vivem muito próximas da cidade, como é o caso das Ilhas de Outeiro, Cotijuba e Combu. Os moradores dessas ilhas dependem da capital, tanto do ponto de vista social ou econômico, enfrentando diversas dificuldades, especialmente em relação ao isolamento gerado pela precariedade dos transportes e pelo acesso limitado a serviços básicos, como água potável, energia e saúde (Meirelles Filho, 2014). Nessas ilhas, moram crianças e adolescentes, filhos de extrativistas, pequenos agricultores e pescadores, que veem a escola como o único espaço para o acesso à educação formal, básica e comum. A escola é um ambiente privilegiado para a apropriação do saber historicamente produzido pela humanidade. Nas escolas das ilhas, ainda é comum encontrar situações em que os direitos das crianças não são garantidos, como a falta de cumprimento do calendário escolar, a ausência de infraestrutura adequada e o transporte escolar precário (Brito, 2008). O conceito de justiça curricular está ligado a uma concepção de currículo que reconhece as diversidades humanas, busca a superação das desigualdades, promove o pensamento crítico e valoriza diferentes saberes e culturas, visando a construção de um mundo mais inclusivo, justo e democrático (Ponce & Leite, 2019). Pensar o letramento matemático na Amazônia sob esta perspectiva nos convida a ampliar os significados atribuídos a este conceito, que está originalmente vinculado a propostas curriculares e avaliações internacionais, especialmente aquelas promovidas pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE, 1999, 2003). Neste estudo, nossas inquietações giram em torno do letramento matemático na Amazônia sob a perspectiva da justiça curricular, no qual objetiva-se trazer para o debate reflexões sobre diferentes finalidades atribuídas ao letramento matemático em distintos contextos. Trata-se de um recorte de uma pesquisa de pós-doutoramento sobre práticas curriculares de letramento matemático na Amazônia, com uma abordagem qualitativa, do tipo bibliográfica e documental, que tem como fonte de dados artigos e livros sobre a temática e documentos curriculares. Parte-se do pressuposto de que é necessário considerar as necessidades das pessoas não apenas em termos de sobrevivência, mas também em relação às habilidades necessárias para uma participação efetiva em uma sociedade democrática (Jablonka, 2003). Considera-se também que os povos locais da Amazônia possuem seus próprios letramentos, habilidades, convenções de linguagem e maneiras de aprender os novos letramentos oferecidos pelas agências, missionários e governos nacionais (Street, 2013; Gomes & Noronha, 2015). Assim, defende-se o direito dos povos ribeirinhos a ter a escola como um espaço privilegiado para o fomento das múltiplas práticas de letramento, incluindo o letramento matemático sob a perspectiva da justiça curricular, com vistas à construção de subjetividades democráticas.