DO EMPÍRICO AO POLÍTICO

DIMENSÕES DO CÍRCULO DE CULTURA FÍSICA NA EDUCAÇÃO FÍSICA

Authors

  • Vitor Hugo Marani Universidade Federal de Goiás

Keywords:

Cultura Física, Pedagogia Crítica, Corpo, Diferença

Abstract

Este trabalho apresenta os pressupostos teórico-metodológicos do Círculo de Cultura Física como uma proposta de resistência na Educação Física, fundamentada na pedagogia crítica de Paulo Freire, nos Estudos Culturais Físicos e nos Estudos Decoloniais. Tal estruturação resulta de esforços coletivos em corroborar com a construção de práticas pedagógicas críticas, devidamente situadas e voltadas à transformação social, notadamente, em tempos de ataques à democracia, à educação e à diversidade, especialmente em contextos marcados pelo avanço da extrema-direita, como o contexto brasileiro. Assim, o Círculo de Cultura Física emerge como uma possibilidade pedagógica que valoriza saberes locais, corpos marginalizados e experiências corporificadas como formas de (re)existência em diferentes cenários atravessados por desigualddes sociais. Inspirada no círculo de cultura desenvolvido no Brasil pelo educador Paulo Freire nos anos 1960, a proposta apresentada incorpora elementos dos Estudos Decoloniais, a partir do diálogo com Catherine Walsh, Aníbal Quijano, Walter Mignolo, e Nelson Maldonado-Torres, e, dos Estudos Culturais Físicos, por meio da produção de David Andrews, Michael Silk e Holly Thorpe. O contato com esses referenciais permitiu tensionar as relações de poder que atravessam distintas expressões da cultura física (jogos, danças, esportes, lutas, entre outras) e reconhecer o corpo como território político e relacional, constituído nas intersecções entre marcadores sociais da diferença como gênero, raça, classe, sexualidade, entre outros. A metodologia se organiza em quatro etapas articuladas, quais sejam: (1) Leitura empírica e contextual, voltada ao reconhecimento dos territórios, sujeitos e dinâmicas locais, com escuta ativa e sensível às experiências corporais; (2) Tematização/Sensibilização, etapa em que se promove a consciência crítica a partir de linguagens expressivas (músicas, imagens, narrativas visuais) que permitam tematizar o corpo como efeito de relações políticas e sociais, o que implica compreender como gênero, raça, classe e sexualidade – entre outras diferenças – estruturam expressões da cultura física; (3) Experimentação/Problematização, momento de ressignificação das experiências corporais, em que o corpo se movimenta, mas também interroga e contesta discursos normativos e exclusões por meio de atividades pedagógica e politicamente direcionadas. É uma experimentação crítica, em que o corpo se afirma como linguagem de resistência e possibilidade de ruptura com padrões hegemônicos da cultura física; e (4) Ação dialógica criadora, etapa final voltada à elaboração de ações concretas e coletivas (jogos, performances e projetos) que enfrentem desigualdades e desafiem discursos hegemônicos, reconhecendo o corpo como agente de (re)existência, potência pedagógica e compromissado com a transformação social. O Círculo de Cultura Física se propõe, assim, como prática investigativa, educativa e política, potente em contextos vulnerabilizados e marcados por injustiças sociais. Ao articular epistemologias críticas, saberes corporificados e experiências locais, essa metodologia possibilita a construção de ações pedagógicas transformadoras que reconheçam as diferenças, promovam experiências criativas tomando o corpo como espaço de luta. Mais do que uma sequência técnica, o círculo constitui uma práxis comprometida com a justiça social, com a denúncia das opressões e com a afirmação de pedagogias libertadoras na Educação Física e para além dela.

Author Biography

Vitor Hugo Marani, Universidade Federal de Goiás

Doutor em Educação Física (UEM), com período sanduíche (PDSE/CAPES) na Universidade de Maryland (EUA), na linha de pesquisa Physical Cultural Studies/PCS. Mestre em Educação Física (UEM), Especialista em Dança (UNIFAMMA) e Licenciado em Educação Física (UEM). É Docente no Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada à Educação (CEPAE), na Universidade Federal de Goiás (UFG) e Docente Permanente do Programa de Pós-Graduação em Educação Física (PPGEF/UFG), na linha Aspectos socioculturais e pedagógicos da Educação Física e Esporte. É líder do Grupo de Pesquisa Corpo, Diferença e Educação Física (CODEF/UFG/CNPq), Coordenador do GTT Gênero e Sexualidade do Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte e Editor da Seção Sociocultural do Journal of Physical Education (DEF/UEM). Suas pesquisas/intervenções focam a cultura corporal a partir de discussões que atravessam o corpo como efeito das relações de gênero/sexualidade, de classe e étnico-raciais, por meio de análises contextuais, políticas e pedagógicas na Educação Física.

Published

2025-10-03

Issue

Section

Simpósio P28 - O DIREITO AO ESPORTE E AO LAZER COMO EXPRESSÃO DOS DIREITOS HUMAN