VAMOS AO QUE INTERESSA

Autores

  • Débora Passos
  • Plínio Gentil Universidade de Araraquara

Palavras-chave:

MINORIAS, AÇÕES AFIRMATIVAS, DISCRIMINAÇÃO, GERAÇÃO DE VALOR, CRIMINALIZAÇÃO

Resumo

Jonathan é filho de Adriana e tem dois irmãos mais jovens. Tem dezenove anos, não trabalha nem estuda e é viciado em drogas. Dependente, já foi internado duas vezes, não conseguindo superar a drogadição. Adriana tem quarenta anos, é separada, nada recebe do ex-companheiro e cuida dos filhos. Mantém a casa, paga todas as despesas e, para isso, trabalha como diarista, faxinando residências. Adriana tem dificuldade para obter emprego fixo, pois o atendimento aos filhos, com seus contratempos e imprevistos, não combina com um compromisso profissional cotidiano; além disso, algumas patroas a demitem ao saber da situação do filho drogadito, especialmente porque ele tem o hábito de, usando o celular da mãe, aplicar pequenos golpes para obter dinheiro e sustentar o vício. Ela, então, prefere receber pagamentos em pix, porque não pode ter dinheiro em casa. Por vezes Jonathan se desespera e, na angústia de uma abstinência involuntária, pede para morrer, já tendo se cortado na testa e nas faces com um prego, produzindo um quadro de horror, o sangue pingando pelo rosto num retrato escabroso de algo que, vagamente, percebe estar muito errado. Adriana, pobre e parda, tem tripla jornada de trabalho: filhos, casa, empregos. Todas as suas atividades, no pano de fundo de uma sociedade como a nossa, geram valor, pois possibilitam a outros, de filhos a empregadores, ter condições e tempo para produzir, como assalariados, riqueza privada para o capital que os emprega – ou que emprega terceiros, quando estão desempregados. Adriana, portanto, produz valor, mas visivelmente não acessa a maior parte dele. Fosse homem e branco, dizem, pode ser que alcançasse um pouco mais daquilo que a ela chega. Assim como Jonathan, Adriana intui que essa situação está errada, embora sem decompor em detalhes as peças da engrenagem que provoca o erro. Muitos pretendem corrigir isso tudo fazendo recortes de gênero, raça, orientação sexual. Sugerem, nas entrelinhas, que a questão está em ser mulher, ser negro, ser homossexual. E que a sociedade costuma discriminar essas pessoas. Para solucionar o problema bastará que a ensinemos a não discriminar. E que criminalizemos a discriminação. E que criemos cotas na universidade e no serviço público para igualar o que, casualmente, é desigual. Se o direito funcionar bem, será capaz de transformar a realidade; se houver ações afirmativas, desaparecerá a desigualdade. Há mesmo quem proponha protocolos de julgamento favorecendo a versão de quem, integrando minorias, se pretenda injustiçado. Mas, ora, também há homens hétero e brancos que são explorados e recebem muito pouco daquilo que produzem. Então o sexo, o gênero e a raça podem não ser tão determinantes. O que dizer àqueles autointitulados progressistas, que apenas propõem políticas públicas, mas não questionam a base material da desigualdade? E que parecem não perceber que a pena criminal é só mais uma forma de punir pobres? Este texto pretende sugerir uma reflexão acerca da captura de pautas das minorias pelo liberalismo e suas consequências.

Publicado

03.10.2025

Edição

Seção

Simpósio On126 - VULNERABILIDADE E GÊNERO NAS RELAÇÕES FAMILIARES