CONTOS DE OUTROS MUNDOS POSSÍVEIS?

SEXUALIDADE E IDENTIDADE DE GÊNERO EM “A MÃO ESQUERDA DA ESCURIDÃO”

Autores

  • Paula Dürks Cassol Universidade de Coimbra

DOI:

https://doi.org/10.29327/1163602.7-289

Palavras-chave:

IDENTIDADE DE GÊNERO, SEXUALIDADE, SUJEITO, EPISTEMOLOGIA FEMINISTA, FICÇÃO CIENTÍFICA

Resumo

Em um mundo chamado Gethen, os gethenianos vivem sua vida sem binaridade de gênero: são pessoas andróginas, que só definem um sexo e se tornam sexualmente ativas durante um período do mês, o kemmer, podendo ter cada vez um sexo diferente, ou não. Esta diferente realidade aparece no romance de ficção científica “A Mão Esquerda da Escuridão”, da aclamada autora Ursula K. Le Guin, e põe em questão a percepção hegemônica ocidental sobre sexualidade e identidade de gênero. A falta de identidade de gênero naquela sociedade torna possível, por exemplo, uma vida social que não se baseia na divisão sexual do trabalho, e não há violência de gênero de qualquer tipo, não há guerra e exploração. Entretanto, em nossa sociedade ocidental, as identidades sexuais e de gênero estão profundamente enraizadas na materialidade da vida das pessoas, em seu acesso aos direitos humanos e nas construções sociais, como a família. Neste sentido, eu pergunto: é possível pensar em uma sociedade sem identidades de sexo e gênero? A transformação social pode ser pensada além da “identidade”? A partir de uma revisão bibliográfica, o objetivo geral deste trabalho é problematizar diferentes construções teóricas sobre sexualidade e identidade de gênero e rever outras imaginações possíveis sobre este tópico. Engajando com o romance “A Mão Esquerda da Escuridão”, de Ursula K. Le Guin, e usando autoras e autores pós-estruturalistas, decoloniais e da teoria crítica feminista, pretendo questionar o problema da identidade e da representação a partir das ideias de sexualidade e identidade de gênero. Além disso, busco rever as construções epistemológicas e ontológicas da subjetividade ocidental como um passo para imaginar uma outra epistemologia que possa abraçar todas as formas de ser e de existir neste mundo, bem como refletir a construção de um outro mundo possível além da binariedade de gênero. Mais do que pensar em inclusão e reconhecimento, a crítica utópica proposta neste trabalho pretende problematizar o que se supõe como “sujeito” nas sociedades ocidentais hoje — e logo, constrói o que assumimos por “sujeito de direito” —, um passo importante para a transformação social.

Publicado

31.12.2022