COLONIZAÇÃO DO PODER E MITO DA DEMOCRACIA RACIAL
MECANISMOS DE DOMINAÇÃO, EXCLUSÃO E SUB-REPRESENTATIVIDADE DE MULHERES NEGRAS DA MAGISTRATURA
DOI:
https://doi.org/10.29327/1163602.7-286Palavras-chave:
mito da democracia racial, colonialidade do poder, colonialidade do gênero, feminismo interseccional, processo decisório criminal.Resumo
Este resumo apresenta alguns aspectos que estão sendo explorados em uma pesquisa de doutorado em andamento que pretende abordar o exercício da magistratura por mulheres no âmbito criminal. Considerando a predominância de homens nesta área do direito, e a correlação dessa atuação com características comumente vinculadas ao gênero masculino (“perigosa”, “agressiva”, “rigorosa”), a hipótese da pesquisa é a de que a atuação mais severa e punitivista no campo criminal, pode também estar relacionada com categorizações, expectativas, e/ou preconceitos presentes internamente, no âmbito da atuação da magistratura, influenciando a prática de juízas mulheres. A partir da sub-representatividade de mulheres e, principalmente, de negras na magistratura, a pesquisa pretende identificar e analisar possíveis mecanismos institucionais que limitam, suprimem e controlam este grupo dentro de um espaço de poder que é predominantemente masculino. Tendo em vista as particularidades que atingem de maneiras diferentes as experiências e o tratamento que é dispensado a pessoas negras em um país onde a existência do racismo estrutural e cotidiano é reiteradamente negada, torna-se necessário que a pesquisa leve em consideração o recorte de raça, preocupando-se em compreender quais são as especificidades que atingem o exercício da magistratura por juízas negras. Por esse motivo, busco realizar uma análise interseccional entre as categorias de sexo, raça e classe, apresentando neste simpósio o conceito teórico de mito da democracia racial para expor a construção da imagem da mulher negra a partir de estereótipos racistas, machistas e classistas. E, também, o conceito de “colonialidade do poder” para compreender como o perfil masculino, branco e elitizado permanece como modelo hegemônico nos cargos de liderança e comando institucionais. A metodologia da pesquisa será de cunho qualitativo, com a realização de entrevistas que permitam identificar o modo como categorizações com base no gênero se manifestam, por quem são reproduzidas, e se existem resistências a elas. Pretende-se adotar uma abordagem que privilegie o compartilhamento de perspectivas e experiências pessoais, utilizando-se de metodologias feministas do direito (BARTLETT, 1990). Para o artigo a ser publicado nos anais do evento, pretendo apresentar dados quantitativos sobre a escassa representatividade de mulheres negras na magistratura (BRASIL, 2018; BRASIL, 2019) e pesquisas qualitativas que buscam visibilizar e discutir experiências específicas vivenciadas por mulheres negras em um espaço masculino, branco e elitizado (GOMES, 2018; FERNANDES, 2020). A ideia é trabalhar neste simpósio o modo como estes dois elementos (mito da democracia racial e colonização do poder) podem funcionar como aparatos de dominação que mantém o poder entre grupos específicos, enquanto perpetua a exclusão e opressão de pessoas negras, especialmente de mulheres negras, da ocupação de espaços de poder como a magistratura. A relevância dessa pesquisa está não somente na possibilidade de identificar relações desiguais de poder entre juízas e juízes criminais, mas também de compreender como/se essas diferenciações podem ou não influenciar o processo decisório no campo criminal.