DESIGUALDADE DE GÊNERO EM OPERAÇÕES INTERAGÊNCIAS

UMA ANÁLISE A PARTIR DO CURSO DE COORDENAÇÃO E PLANEJAMENTO INTERAGÊNCIAS DA ESCOLA SUPERIOR DE DEFESA

Authors

  • Nádia Xavier Moreira

Keywords:

GÊNERO, OPERAÇÕES INTERAGÊNCIAS, DEFESA, SEGURANÇA PÚBLICA, DESIGUALDADE DE GÊNERO

Abstract

A presente comunicação propõe-se a analisar como a perspectiva de gênero comparece na formação e na prática profissional de agentes envolvidos em operações interagências no campo da defesa e da segurança pública, a partir de uma investigação qualitativa realizada com egressas e egressos da terceira edição do Curso de Coordenação e Planejamento Interagências (CCOPI), oferecido pela Escola Superior de Defesa (ESD). Tal objeto se articula diretamente às discussões do Simpósio 131, ao abordar os impactos da desigualdade de gênero no ambiente de trabalho, particularmente em setores marcadamente masculinizados, como o da defesa e da segurança pública.

A relevância temática está ancorada na constatação de que, mesmo diante do crescente reconhecimento das operações interagências como respostas eficazes a crises complexas, como desastres ambientais, emergências sanitárias, migrações forçadas e crimes transnacionais, a inserção feminina nesses espaços ainda é limitada, tanto numericamente quanto em termos de reconhecimento simbólico e institucional. Este contexto é agravado por padrões culturais e institucionais que tendem a naturalizar a presença masculina como dominante e a marginalizar experiências e capacidades femininas.

O objetivo da pesquisa foi compreender de que maneira os marcadores de gênero afetam a experiência laboral de mulheres em operações interagências, com ênfase nas formas de acesso, participação e reconhecimento no ambiente de trabalho. Para isso, foi utilizada uma metodologia qualitativa composta por revisão bibliográfica, análise documental e entrevistas semiestruturadas com quatorze egressos do CCOPI, sendo sete mulheres e sete homens. A análise dos dados foi conduzida com base no Método de Interpretação de Sentidos, que permite identificar núcleos simbólicos compartilhados nas narrativas dos sujeitos.

As hipóteses iniciais previam que a baixa participação feminina no curso e em operações interagências refletiria não apenas a desigualdade de oportunidades, mas também dinâmicas sutis de exclusão, como silenciamento, hipervisibilidade e descrédito profissional. Os resultados parciais confirmam tal suposição. Entre as mulheres, emergiram categorias como “ser vista como enfeite”, “desrespeito à autoridade feminina” e “necessidade constante de provar competência”. Entre os homens, foram comuns discursos que minimizavam a existência de desigualdades ou que naturalizavam papéis de gênero, especialmente na divisão entre funções operacionais e burocráticas.

Ao relacionar tais achados com a literatura sobre justiça social e saúde mental no trabalho, observa-se que a permanência de barreiras simbólicas e institucionais à plena inserção das mulheres nas operações interagências configura não apenas uma desigualdade laboral, mas também uma forma de violência institucional que afeta a dignidade, o bem-estar e os direitos humanos das trabalhadoras. Concluímos que, para promover transformações institucionais mais equitativas, é necessário reconfigurar os ambientes de formação e atuação profissional a partir de políticas interseccionais de inclusão e de reconhecimento da diferença como valor estratégico fundamental no campo da defesa e da segurança pública.

Published

2025-10-03

Issue

Section

Simpósio On131 - TRABALHO FEMININO E DIREITOS HUMANOS