DIREITOS CULTURAIS E POLÍTICAS PÚBLICAS

QUAL É O LUGAR DA CULTURA NEGRA NAS POLÍTICAS CULTURAIS DO BRASIL (1960-1988)?

Authors

  • Vanessa Santos do Canto UNIRIO

Keywords:

DIREITOS CULTURAIS, POLÍTICAS PÚBLICAS, CULTURA NEGRA

Abstract

Alguns estudiosos do campo das políticas culturais consideram que estas teriam surgido no século XX, no continente europeu ainda nos anos de 1930, com as iniciativas político-culturais da Segunda República Espanhola; a instituição do Arts Council na Inglaterra na década de quarenta e a criação do Ministério dos Assuntos Culturais na França, em 1959. Neste sentido, alguns autores têm considerado que, efetivamente, as políticas culturais surgem neste ano. É, a partir desse marco, inclusive, que a atuação da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) geralmente é analisada (Rubim, 2009). Contudo, gostaria de repensar o surgimento das políticas culturais, mesmo se aceitarmos tal marco histórico, a partir dos possíveis impactos produzidos pelas declarações sobre raça[1] e pelos estudos realizados no âmbito do denominado Projeto UNESCO no Brasil. Além disso, e, principalmente, desejo refletir sobre os posteriores desdobramentos e desafios colocados pelo movimento negro no país durante o processo de resistência ocorrida ao longo dos anos de 1960 e 1970, que culminou na fundação do Movimento Negro Unificado, no ano de 1978. Além disso, minha análise, ainda inicial, vai até a realização da Assembleia Nacional Constituinte de 1987-8, tendo em vista a inscrição dos direitos culturais no texto constitucional promulgado no dia 05 de outubro de 1988, ano no qual também ocorreu uma série de debates importantes sobre o centenário da abolição formal do sistema escravocrata, tendo como pano de fundo, o Plano Nacional de Cultura de 1975 e a Lei Sarney de incentivo à cultura. Isto porque, se é verdade que ao longo das décadas de 1960 a 1980, o debate sobre o papel da cultura negra para a formação da sociedade brasileira ganhou novos contornos a partir das elaborações teóricas de intelectuais negros, tais como, Abdias do Nascimento, Clóvis Moura, Lélia Gonzalez e Beatriz Nascimento e Edson Cardoso, por outro lado, apesar das importantes contribuições por eles elaboradas, ainda não existe um repertório substancial sobre o papel dessa atuação para as políticas culturais elaboradas a partir da atuação e influência da UNESCO no Brasil. Sendo assim, este trabalho busca contribuir com os estudos sobre políticas culturais no Brasil, dando maior centralidade à agência negra e à sua agenda política na análise do processo de elaboração das políticas culturais do Brasil, notadamente, a partir dos anos de 1970. A pesquisa está sendo realizada através de revisão de literatura que indica uma carência de estudos referentes sobre o papel dos intelectuais negros para a elaboração das políticas públicas voltadas à efetividade dos direitos culturais.

[1] As declarações sobre raça da UNESCO são: Declaração sobre raça (Paris, julho de 1950); Declaração sobre a natureza da raça e das diferenças raciais (Paris, junho de 1951) Propostas sobre os aspectos biológicos da raça (Moscou, agosto de 1964); Declaração sobre raça e preconceito racial (Paris, setembro de 1967)

Author Biography

Vanessa Santos do Canto, UNIRIO

Sou advogada e graduada em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) (2006). Mestre em Serviço Social pela mesma Universidade (2009), com bolsa CAPES de desempenho acadêmico. Mestra em Direito Constitucional pelo PPGDC-UFF (2023). Doutora em Teoria do Estado e Direito Constitucional pela PUC-Rio (2021). Sou especialista em Patrimônio Cultural pelo CEFET-RJ (2022). 

Published

2025-10-03

Issue

Section

Simpósio On72 - DIREITOS HUMANOS ENTRELAÇANDO ARTE, LITERATURA E POLÍTICAS PÚB.