FRAGMENTOS EM TRÂNSITO
MIGRAÇÃO, VIOLÊNCIA DE GÊNERO E A NARRATIVA DA SEPARAÇÃO FAMILIAR NA ERA TRUMP
Palavras-chave:
MIGRAÇÃO; VIOLÊNCIA DE GÊNERO; SEPARAÇÃO FAMILIAR; NARRATIVAS MIDIÁTICASResumo
Desde as promessas de campanha até o início do segundo mandato de Donald Trump, diversos meios de comunicação vêm noticiando as novas políticas de deportação adotadas pelos Estados Unidos. Essas reportagens evidenciam imagens impactantes de pessoas algemadas em aviões e narram trajetórias migratórias abruptamente interrompidas ou reconfiguradas em razão das deportações em massa. Nesse cenário, e nos contextos das migrações globais nota-se uma transformação significativa no perfil migratório, marcado pela crescente presença de mulheres, famílias, crianças e adolescentes desacompanhados. Essa mudança se reflete nas estratégias adotadas por esses grupos para tornar suas trajetórias visíveis e evitar múltiplas formas de violência, como ocorre nas caravanas que cruzavam o México. Neste artigo nos propomos a analisar os impactos dessas transformações práticas, políticas e discursivas especialmente nas formas de narrar e representar pessoas migrantes deportadas/repatriadas. Partimos da compreensão de que as políticas de deportação em massa do atual governo estadunidense afetam diretamente os processos migratórios familiares e influenciam as representações midiáticas sobre o fenômeno. Essas políticas vêm promovendo sistemáticas violações de direitos humanos, desconsiderando os vínculos familiares, promovendo a separação em vez da reunificação, e reforçando a criminalização/Ilegalização das migrações (De Genova, 2002). Observamos, ainda, a intensificação da externalização das fronteiras norte-americanas (Léon, 2017), por meio de detenções e deportações que muitas vezes são desviadas dos países de origem e relocalizadas em outros destinos, em prisões como o caso dos voos destinados a El Salvador, comandada pelo presidente Bukele. Buscamos discutir a violência institucional de gênero implicada nos processos migratórios familiares interrompidos pelas deportações e repatriações, bem como as transformações narrativas sobre as migrações latino-americanas, especialmente as sul-americanas. A análise requer abordagem interseccional das estruturas familiares afetadas, considerando dinâmicas verticais e horizontais, bem como os impactos subjetivos e materiais da ruptura dos laços familiares. As políticas de criminalização e deportação atuam como mecanismo de desintegração sistemática das famílias migrantes, ao mesmo tempo em que fomentam a produção de narrativas midiáticas baseadas em estereótipos e na hiper visibilização das tragédias protagonizadas por pessoas migrantes — processo que De Genova (2002) denomina como a espetacularização da fronteira. Tais representações estigmatizam os migrantes, muitas vezes desviando a atenção do processo de violência no decorrer da deportação/repatriação e culpabilizando os migrantes das condições indignas em que acontecem tais processos e relativizando a responsabilidade dos Estados envolvidos. A metodologia é qualitativa, baseada na análise e sistematização de discursos jornalísticos publicados nos veículos: New York Times, O Globo, BBC News Mundo e El País. A pesquisa busca observar como os impactos familiares das políticas de deportação e separação são narrados a partir do segundo mandato de Trump, assim como os migrantes deportados e suas famílias são representados. Buscamos contextualizar, assim, a narrativa midiática das deportações e suas práticas políticas a partir do primeiro semestre de 2025, com a circulação das representações sobre migrantes.