MOBILIDADE, PRECARIZAÇÃO E SEGREGAÇÃO

O ESPAÇO URBANO NA ERA DAS PLATAFORMAS DIGITAIS

Autores

  • Gustavo Escher Dias Canavezzi Faculdade de Direito de Sorocaba - FADI
  • Oswaldo Akamine Jr. Faculdade de Direito de Sorocaba - FADI

Palavras-chave:

MOBILIDADE URBANA, SEGREGAÇÃO ESPACIAL, PLATAFORMAS DIGITAIS, PRECARIZAÇÃO, DIREITO À CIDADE

Resumo

A cidade contemporânea vive um novo ciclo de reorganização territorial, marcado pelo uso intensivo de tecnologias digitais que afetam profundamente a mobilidade urbana e as relações de trabalho. Plataformas como Uber e iFood têm reconfigurado os fluxos urbanos ao mediar deslocamentos cotidianos e ao introduzir regimes de trabalho orientados por algoritmos. A mobilidade, antes organizada por políticas públicas de transporte coletivo, passa a ser regida por dinâmicas de mercado, flexibilização extrema e extração de dados, contribuindo para o aprofundamento das desigualdades socioespaciais. Este trabalho parte da premissa de que a técnica não é neutra, e sim expressão das relações sociais e de poder, como propõe Milton Santos ao descrever o meio técnico-científico-informacional. A cidade, sob o domínio das plataformas digitais, torna-se cada vez mais funcional à lógica de circulação de mercadorias, dados e pessoas, operando com base na exploração intensiva do tempo e do território. O que se apresenta como inovação e eficiência oculta formas renovadas de precarização do trabalho urbano, afetando majoritariamente populações periféricas. A mobilidade gerenciada por plataformas, ao prometer autonomia e flexibilidade, na verdade reconfigura a infraestrutura urbana e consolida novas formas de segregação. Observamos o entrelaçamento entre as lógicas algorítmicas e a reprodução da desigualdade espacial histórica, conforme apontado por Flávio Villaça e Ermínia Maricato. A circulação dos trabalhadores de aplicativos evidencia um deslocamento funcionalizado, marcado pela ausência de direitos e pela sobreposição de funções: o trabalhador é simultaneamente operário, gestor e produto. Autores como Nick Srnicek e Byung-Chul Han ajudam a compreender esse processo dentro do contexto do capitalismo de plataforma e da infocracia, em que o tempo, o espaço e a subjetividade são mercantilizados. Já Francisco de Oliveira, com a imagem do “ornitorrinco”, oferece a chave para entender a coexistência disfuncional entre inovação tecnológica e atraso estrutural: a cidade inteligente no Brasil emerge como um híbrido de alta sofisticação técnica e profunda desigualdade social. A mobilidade urbana, portanto, torna-se o espelho das contradições da cidade neoliberal, onde o direito à cidade cede espaço à lógica da eficiência algorítmica. Propõe-se, assim, uma reflexão crítica sobre o papel das plataformas digitais na reorganização do espaço urbano e dos direitos dos que nele circulam, com ênfase na centralidade do território como campo de disputa entre técnica, política e justiça social.

Publicado

03.10.2025

Edição

Seção

Simpósio On109 - DIREITO À CIDADE (INTELIGENTE), SUSTENTABILIDADE E INT. ARTIF.