E ELAS, NÃO SÃO MULHERES?
ANÁLISE DOS INIMIGOS INTERNOS: RACISMO E SEXISMO NA CULTURA BRASILEIRA
Keywords:
Mulheridade- Violências patriarcais- Memorias- BrasilAbstract
Esta comunicação reflete sobre inimigos internos (hooks,2019): racismo e sexismo, analisando dados documentais da investigação pós-doutoral: Racialidade e Branquitude no catolicismo popular do século XIX. Via documentos públicos, religiosos, particulares reconstituímos cenários sociais, políticos, econômicos das Minas Gerais, Brasil. O encontrado revela o lugar social das mulheres negras, na estrutura colonial/imperial e a construção da mulheridade (Gonzalez, 2020). Para Gonzalez (2020), brasileira, negra, antropóloga, as mulheres negras aprenderam a mulheridade, relações de solidariedade, no ‘enfrentamento’ da violência colonial, que lhes negou a alteridade. No pensamento feminista e no feminismo negro- latino americano, reafirmamos Beauvoir (2016)- ‘não se nasce mulher, mas torna-se’. Os dados retratam o processo de desqualificação do feminino e da mulher, ‘a mulher sempre foi, se não a escrava do homem, ao menos sua vassala; [...] Mesmo quando os direitos lhe são abstratamente reconhecidos, um longo hábito impede que encontrem nos costumes expressão concreta. (Beauvoir, 2016, p. 17). Na expressão: E eu não sou uma mulher? Sojourner Truth (1863), mulher, negra, escravizada, problematizou o pensamento liberal branco cristão sobre a igualdade entre homens e mulheres, nos Estados Unidos, séc.XIX, onde a discriminação racial era instituída. No séc. XX, bell hooks, feminista, negra, retoma à frase, na crítica ao feminismo branco, universalista. Discute a diáspora afro americana, argumenta que às mulheres negras pesam o sexismo, o racismo. Para Gonzalez (2020) e hooks (2019), o patriarcado cristão supremacista branco funda e estrutura o capitalismo. Nele, mulheres negras estão na base da pirâmide social. O feminismo(s) elucida os achados da colonização brasileira, rompe o esquecimento histórico sobre a relação religião/igreja, estado/colonização, evidencia a arquitetura da violência (LIMA&GOMES,2024). Dizem, das violências institucionais dirigidas as mulheres negras, escravidão, normas sociais, abuso sexual, expropriações dos corpos, dos valores culturais, dos filhos. Tornadas objeto dos senhores - padres e não padres, significadas ‘coisa’, ‘mal’ vivenciaram opressões. Na pedagogia cristã dos círculos concêntricos (LIMA & GOMES, 2024), identificamos a relação educação e religião; os simbólicos que moldam a sociedade brasileira, ainda, hoje. Racismo e o sexismo são constitutivos da cultura brasileira; o mito da democracia racial nega, invisibiliza o domínio escravagista patriarcal, os estupros produtores da miscigenação brasileira. Silenciamento e esquecimento ocultam a solidariedade, sobrevivência, resistência e enfrentamentos que promoveram outras formas de vida, que constituíram linguagens, culturas, religiosidades, economias, afetos; nossas memórias sociais comunais. Em nosso entendimento, princípios ecofeministas (Puleo,2025). No título, E elas, não são mulheres? salientamos as condições impostas as mulheres negras. Colonização, branquitude, patriarcado negaram-lhes a alteridade. Entretanto, elas produziram mulheridades. Refletindo os inimigos internos, desnaturalizamos violências que dificultam relações equitativas, democráticas, na contemporaneidade. Reconhecemos que a mulher negra introduziu a criança branca no simbólico da linguagem. Ocupou função social da mãe, constituiu o pretoguês, superou a língua do dominador, humanizando-a (Gonzalez,2020).