ENTRE ASSIMETRIAS DE PODER E GOVERNANÇA PARTICIPATIVA
REFLEXÕES CRÍTICAS SOBRE REPARAÇÃO INTEGRAL DE DANOS EM DESASTRES CRIADOS
Palavras-chave:
DESASTRES CRIADOS, DESLOCAMENTO FORÇADO, JUSTIÇA REPARATÓRIA, DIREITOS HUMANOS, GOVERNANÇA PARTICIPATIVAResumo
A pesquisa propõe uma reflexão sobre os desafios que envolvem a identificação e a reparação de danos em contextos de desastres criados por grandes empreendimentos, sobretudo pela indústria extrativo-mineral. Nesses cenários, observa-se a recorrência de um protagonismo indevido das próprias empresas responsáveis pelo desastre na condução dos processos reparatórios, o que gera assimetrias de poder, legitima acordos insuficientes e perpetua violações de direitos humanos. Os desastres criados provocam, invariavelmente, processos de deslocamento forçado que rompem abruptamente os vínculos territoriais das comunidades atingidas. Esse deslocamento não se traduz apenas na perda material de propriedades, mas na destruição de práticas culturais e modos de vida que se constituem como elementos centrais da identidade coletiva. Nesse contexto, emerge a necessidade de reconhecer o direito ao reassentamento como direito humano fundamental, que transcende a simples garantia do direito à moradia para abarcar a proteção integral dos direitos à territorialidade, aos modos de vida tradicionais e aos projetos coletivos de futuro. A territorialidade, compreendida como a relação simbólico-material entre comunidade e território, abrange não apenas o espaço físico ocupado, mas as formas específicas de organização social, os sistemas de conhecimento local e as manifestações culturais que conferem sentido à vida coletiva. Os projetos de vida das comunidades, por sua vez, referem-se às aspirações coletivas que orientam as escolhas e investimentos de longo prazo, sendo brutalmente interrompidos pelos desastres e raramente contemplados nos processos reparatórios convencionais. O estudo parte do entendimento de que a reparação de danos não pode se limitar a medidas compensatórias meramente financeiras, mas deve considerar as múltiplas dimensões dos impactos, incluindo as perdas territoriais, culturais e simbólicas experimentadas pelas populações atingidas. A proteção desses direitos fundamentais exige que os processos reparatórios sejam estruturados de forma a garantir não apenas a recomposição material, mas a possibilidade de reconstrução dos vínculos territoriais e da continuidade dos projetos coletivos de vida. Assim, o trabalho se justifica pela necessidade de fortalecer o debate acadêmico e institucional sobre como garantir processos de reparação que sejam efetivamente participativos, transparentes e sensíveis às especificidades de cada comunidade afetada. Os objetivos da pesquisa são: (i) analisar as diretrizes e práticas vigentes para identificação e quantificação de danos em desastres criados; (ii) investigar as dinâmicas de poder que se estabelecem entre empresas, Estado e sociedade civil nos processos de reparação e (iii) discutir os limites e potencialidades das normativas vigentes e fomentar a reflexão sobre caminhos que ampliem a voz e o protagonismo das comunidades atingidas. A metodologia empregada é de caráter qualitativo, baseada em revisão bibliográfica interdisciplinar, análise da legislação nacional e de estudo de casos emblemáticos. Parte-se da hipótese de que, sem rupturas com a forma atual de reparação de danos, as comunidades permanecerão expostas a soluções reparatórias fragmentadas e insuficientes. Ainda que não se proponham parâmetros objetivos de quantificação de danos, o trabalho pretende contribuir com subsídios teóricos para o fortalecimento de práticas de governança participativa, capazes de reequilibrar as relações de poder e garantir reparações mais justas, pautadas na dignidade da pessoa humana.