A ARTE RESISTÊNCIA NO TEATRO DE JOÃO DAS NEVES
Keywords:
Arte e direitos humanos. Teatro resistência. João das Neves.Abstract
A arte é a única coisa que resiste a morte, diz Deleuze citando Malraux (Arte e Sociedade de Controle, 1987). A obra de arte é em essência um o ato de resistência. Segundo Deleuze, há uma afinidade fundamental entre ambos. Hoje essa relação se dá no cenário de uma sociedade de controle, cujo sistema se organiza via informação, instrumentalizada pela comunicação. Insurgente a isso, opera a contrainformação, cuja importância ou eficácia está na sua natureza ou na sua conversão em ato de resistência. Há uma instigante relação entre a obra de arte e o ato de resistência (Arte e Sociedade de Controle, Deleuze, 1987). O teatro de João das Neves é resistência. A sua vida e dramaturgia foram tal, desafiando a ditatura militar e a negligência histórica de políticas públicas destinadas ao teatro brasileiro e a sujeitos e grupos vulnerabilizados. João das Neves deslocou-se por todo o Brasil, onde aprendeu, ensinou, denunciou as mazelas sofridas pelos oprimidos. Compreendeu e conviveu com a diversidade e fez um teatro plural, múltiplo. O teatro de João das Neves mobiliza o conceito de Deleuze e Guattari (1997) de máquina de guerra, enquanto potência inventiva conectada ao pensamento nômade, capaz de ruir as estruturas postas, resistir ao Estado. O pensamento, a vida de João das Neves consistem na resistência da máquina de guerra nômade ao Estado. João é um nômade. Os seus arredamentos são permanentes. Ao se deslocar, desloca o mundo. João afasta o teatro do seu eixo com seu realismo crítico encantatório. O seu pensamento é nômade. A sua obra é marcada por desfocares físicos, temáticos e estéticos, sempre reafirmando a participação comunitária. A sua criação é o encontro com o imprevisto. É a multiplicidade de vidas, de vivências que floresce nas fábulas que revisita. Resulta, assim, das reflexões aqui propostas, apresentar a arte de João das Neves como resistência- histórias de ninguém, ou todas as histórias na unicidade (deleuze-guattariana) da viagem que vai para lugar nenhum, porque nem o ponto de partida, nem a chegada importam, mas o percurso. É a guerra incessante. É a máquina de guerra que se move. Com essas reflexões infere-se que a sua dramaturgia enquanto projeto político está fora do projeto ideológico de coesão nacional que instituem o campo jurídico opressor. Pelo contrário, ao atuar permanentemente no espaço dos oprimidos e ocultados, denuncia as mazelas desse projeto. Faz a contrainformação como ato de resistência e a resistência da arte.