MECANISMOS DE AUTO-TRANSFORMAÇÃO NA SOCIEDADE CIVIL

REFLEXÃO SOBRE O CONCEITO DE AUTO-AJUDA-MÚTUA (SELBSTHÜLFE) NO DESENVOLVIMENTO DO COOPERATIVISMO NO SUL DO BRASIL NO INÍCIO DO SÉCULO XX

Authors

  • Josei Fernandes Pereira Universidade de Passo Fundo

Keywords:

COOPERATIVISMO, AUTO-AJUDA-MÚTUA, SOCIEDADE CIVIL, PODER LOCAL

Abstract

O conceito de auto-transformação econômica e social contém, em autores como Ladislau Dowbor, a chave para a compreensão de um movimento que se amplia gradativamente em países desenvolvidos, o liveability. Mas a busca pela qualidade de vida não é um fenômeno recente, tampouco exclusivo dos países desenvolvidos, podendo ser analisado em inúmeros movimentos históricos, como na implantação das primeiras cooperativas rurais no sul do Brasil, entre o final do século XIX e início do século XX. O desenvolvimento das comunidades coloniais de imigrantes europeus nesse contexto, oferece elementos para refletir sobre a presença de uma mentalidade associativa, baseada nos princípios cooperativos originados nas contradições da revolução industrial. Com a chegada dos imigrantes europeus no século XIX, assistimos a uma nova etapa no processo de desenvolvimento econômico e social na região sul do Brasil. O aprendizado de técnicas de produção agrícola adaptadas à realidade climática e ambiental, e a incidência de práticas de auto-ajuda-mútua (Selbsthülfe) na organização comunitária, resultará na formação das primeiras sociedades de crédito cooperativas. Criadas para combater a usura das casas bancárias que atuavam nas regiões coloniais, as Caixas Rurais Raiffeisen atuaram livremente no Rio Grande do Sul no início do século XX, reinvestindo as poupanças da comunidade na construção de obras de interesse público. Valendo-se de documentos oficiais de diferentes cooperativas (algumas das quais ainda em atividade, como as Caixa Rurais União Popular de: Serra Cadeado; Cerro Azul e Nova Petrópolis), este trabalho objetiva refletir a atuação destes grupos sociais na ação pública das regiões coloniais, verificando nestas práticas elementos para a análise das práticas de poder local desenvolvidas ao longo da primeira república, nas regiões de colonização europeia situadas no sul do Brasil. As reflexões são amparadas nos referenciais teóricos de sociedade civil de Norberto Bobbio, costumes em comum de Edward Thompson e poder local de Janaina Santin. A hipótese central gira em torno de que a ausência do Estado, na forma de políticas públicas para o desenvolvimento econômico e social dos médios e pequenos produtores rurais, contribuiu para um movimento de ação supletiva de entidades associativas criadas para suprir as necessidades comunitárias. Os resultados parciais apontam para a tese de que esta experiência produziu, neste contexto, um modelo cooperativista pautado tanto por ideais originados no socialismo utópico (pós-revolução industrial) quanto em práticas liberal-burguesas, como a auto-ajuda (self-made), constituindo no cooperativismo um campo de mobilizações, associações e forças sociais que buscam a satisfação das suas necessidades, a qualidade de vida mas, também, a conquista do poder de fato no âmbito local.

Published

2022-01-06