ACELERAÇÃO SOCIAL E FAKE NEWS

A PANDEMIA DE COVID-19 EM UM BRASIL QUE NÃO PODE PARAR

Autores

  • RANE FERREIRA RIOS HOLLANDA CAVALCANTE DE MORAIS PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS

Palavras-chave:

infodemia

Resumo

Neste artigo pretendemos analisar o pano de fundo social em que se desenvolve a crise provocada pela COVID-19 no Brasil, mediante o entrelaçamento dos sentidos da modernidade presentes na teoria da aceleração social de Hartmut Rosa e no conceito de infoesfera de Luciano Floridi. Para tanto, adotaremos o recorte temporal da modernidade tardia ou contemporaneidade, em que se verificam o recrudescimento da lógica da aceleração e a respectiva transmutação do capitalismo, que, agora, demanda maior dinamização social e velocidade dos fluxos, de transações financeiras e inovações tecnológicas, de tal modo que o crescimento escalar e a compulsão ao movimento tornam-se desejos autojustificados. Neste período, as tecnologias de informação e comunicação deixaram de ser instrumentos por meio das quais interagimos com o mundo e uns com os outros para tornarem-se forças ambientais, antropológicas, sociais e interpretativas de forma que o progresso e bem-estar humano não apenas estão relacionados, mas dependem da eficiência de tais tecnologias. Em seguida, corroborando a lógica aceleratória dominante da modernidade, analisaremos a condução da crise sanitária pelo Governo Federal como imposição de uma dicotomia inconstitucional entre vida e economia, manifesta no negacionismo da pandemia e nas tentativas de uso das redes sociais para promover desordem informacional, tal como aquela evocada pela campanha publicitária governamental “O Brasil Não Pode Parar”. Essa campanha pode ser considerada como parte de um contexto de crescimento do número de fake news veiculadas a respeito da pandemia, descrita como uma “desinfodemia”: uma epidemia de desinformação básica sobre a doença de COVID-19. Trataremos, ainda, da emergência da pandemia nesse contexto, que traz em si a necessidade de uma ação político-constitucional coordenada — e não natural —, mobilizada a instituir freios às forças aceleratórias, com as medidas jurídicas de isolamento social e a contenção de circulação de pessoas e mercadorias. Em termos metodológicos, a pesquisa é teórico-conceitual, de perfil exploratório e de análise bibliográfica e documental.  Ao final, serão apresentadas as contradições internas ao funcionamento da aceleração social de nossos tempos tardomodernos e o que tal contexto histórico pode desvelar, em termos de abertura, ao futuro do projeto constitucional de sociedade.

Publicado

06.01.2022