VIVA A SOCIEDADE ALTERNATIVA!
RELATOS DE UMA EXPERIÊNCIA EMANCIPATÓRIA NO INTERIOR DO BRASIL
Resumo
A organização de indivíduos em determinado espaço em torno de uma ação comunicativa, mediante o intercâmbio de argumentos, permite que os problemas da vida sejam vistos de acordo com a ética comunitária, o direito plural e uma política mais democrática, numa resposta comunitária aos limites impostos pelo estado moderno. Assim foi a existência das comunidades alternativas, em especial a Fráter no município goiano de Pirenópolis, na primeira metade dos anos 1980, que representou uma experiência social emancipatória, através da organização em torno de um ideal. Desde os anos de 1950 manifestações contra o sistema cultural e social vigente ganha força nos Estados Unidos, inspiradas pela contraposição ao American Way of Life, que se tornava um modelo para todo o mundo ocidental. O sentimento representado por esses movimentos era a liberdade de pensamento e seus objetivos eram os de influenciar gerações e estabelecer novos paradigmas sociais. A emergência desses movimentos de contracultura tem como oposto constitutivo a tecnocracia fundada na sociedade industrial do pós-guerra e seu anseio pelo aumento da produção. A oposição a integração à esta sociedade industrial tecnocrática era o que representava o sentimento que embalava o movimento alternativo no seu nascedouro e esse sentimento permaneceu por toda a década de 1960, tendo seu ápice no ano de 1969 com a realização do festival de Woodstock, que possuía íntima ligação com o movimento de contracultura ou movimento hippie, num contexto do auge da guerra fria. A contracultura se difunde pelo mundo durante essas duas décadas e no Brasil assume especificidades provenientes da realidade política social em que o país estava inserido, instaurando-se como grande aliada na resistência contra a ditadura militar. O descontentamento com o regime militar e a difusão do movimento de contracultura contou com o apoio de artistas brasileiros consagrados como Caetano Veloso, Gilberto Gil e líderes do movimento tropicália, reforçando o sentimento de repúdio à sociedade pensada pelos grupos dominantes. O movimento alternativo ou de contracultura se difunde pelo país e dá ensejo a formação de várias comunidades alternativas urbanas e rurais, embaladas pelo lema “paz e amor”, algumas vão se instalar no município goiano de Pirenópolis, objeto desta pesquisa, e vão estabelecer suas próprias regras e relações jurídicas, sincrônicas ao direito estatal, além de exercer significativa influência na dinâmica e cultura da sociedade local. Propõe-se investigar, através do método bibliográfico e análise de documentos oficiais, como esta comunidade criou o próprio direito, que não era, exatamente, contrário ao estatal positivado, mas era exercido em nome de um direito considerado coexistente e paralelo, por contemplar seus ideais espirituais, a autorrealização do ser e o respeito à natureza, à cultura e à arte; e alguns dos resultados na sociedade, fruto dessa experiência.