Entre fronteiras e saberes

As poéticas do corpo no atravessamento de culturas

Autores

  • Cassiana Rodrigues Santana Universidade Estadual de Campinas

Palavras-chave:

dança indiana, umbanda, interculturalismo

Resumo

Essa é uma proposta intra e intercultural que atravessa saberes ancestrais advindos de dois continentes, Ásia e África, mas que são postos em diálogo por um corpo latino-americano. A pesquisa parte do estudo de dois conceitos que formam a base de construção expressiva da dança clássica indiana, bhava e rasa, definidos no Natyasastra, para ir de encontro ao corpo afro-brasileiro, com sua história, cultura e espiritualidade. Rasa é a forma dada à emoção (bhava) que se pretende demonstrar e significa, literalmente, sabor. Quando um intérprete está preenchido por bhava, ele produz um rasa (a estética) que é então, “oferecido” ao espectador, produzindo nele, uma nova emoção. No entanto, apesar de entendermos esses princípios como fundamentos para a construção dramática, eles vão muito além das artes da cena, pois são modos de percepção da vida, de reconhecimento do outro e passam por conceitos filosóficos que estruturam a cultura hindu. Por outro lado, a cultura afro-brasileira encontra, nos orixás, a representação arquetípica de forças da natureza confrontadas com traços de personalidade, conectando corpo, meio-ambiente e ancestralidade. Apesar de possuírem histórias bastante diversas, até mesmo conflituosas, ambas revelam pontos em comum: a relação com saberes ancestrais, o solapamento histórico pelas estruturas hegemônicas, e a resistência pela cultura. As artes da cena atuam nos caminhos abertos entre fronteiras, como um espaço de sobrevivência e de denúncia, onde as vozes caladas por tantos séculos se unem para abrir campo em tempos desafiadores. Ambos desejam o reconhecimento daqueles que construíram nossa história e que foram apagados pelo tempo e negacionismo impostos por questões de raça, gênero e classe (dentre outros) marcados em seus corpos e vozes sufocadas. Essa investigação busca relacionar essas culturas por meio das poéticas do movimento expressivo, baseados nos nove rasas da dança indiana, em diálogo com os orixás cultuados na Umbanda. Para tal, o corpo brasileiro será o mediador desses processos de resistência contra a colonização e apropriação cultural. Esse projeto propõe as seguintes hipóteses: os conceitos de bhava e rasa podem ser confrontados com outras culturas sem perder a sua essência; a relação entre culturas pode ser um caminho de troca sem que uma seja subjugada a outra; a pesquisa sobre orixás pode ser um instrumento de resistência cultural brasileira, mas que pode dialogar com outros povos. Essa é uma pesquisa aplicada, com contornos etnográficos e que se baseia num olhar fenomenológico sobre culturas distintas. Para tal, foram selecionados os seguintes procedimentos metodológicos: pesquisa bibliográfica e de campo; treino prático; registro escrito e áudio visual. A análise dos resultados será feita a partir dos dados coletados ao longo da pesquisa. Esse estudo se dá “entre fronteiras e saberes”. E, assim como as fronteiras são espaços movediços, os saberes também o são, atravessando tempos, corpos e culturas, sempre em processo de descoberta e transformação.

Publicado

06.01.2022